A longevidade de uma lente de porcelana depende diretamente da superfície onde ela é colada. Quando o laminado é cimentado sobre esmalte, a adesão é forte, estável e previsível — é a melhor condição possível. Quando o preparo ultrapassa o esmalte e expõe dentina, a adesão é possível, mas menos previsível, mais sensível à técnica e com maior risco de degradação ao longo do tempo. Essa diferença biológica é a razão principal pela qual o Protocolo Borille prioriza o preparo conservador em esmalte — não por economia de material, mas por ciência de adesão.
Para entender a diferença de adesão, é preciso entender a diferença entre os dois tecidos.
O esmalte é o tecido mais duro do corpo humano. É composto por aproximadamente 96% de mineral (cristais de hidroxiapatita) e apenas 4% de água e matéria orgânica. Essa composição predominantemente mineral tem implicações diretas:
A dentina é o tecido que fica abaixo do esmalte. É composta por aproximadamente 70% de mineral, 20% de matéria orgânica (colágeno tipo I) e 10% de água. A estrutura é radicalmente diferente:
| Parâmetro | Esmalte | Dentina |
| Composição mineral | ~96% | ~70% |
| Água | ~4% | ~10% + fluído tubular |
| Condicionamento ácido | H₃PO₄ 37% → microporos uniformes | H₃PO₄ 37% → exposição de colágeno + abertura de túbulos |
| Mecanismo de adesão | Microretenção mecânica (tags de resina) | Camada híbrida (infiltração de colágeno) |
| Força de adesão (MPa) | 20-50 MPa (consistente) | 15-40 MPa (variável) |
| Sensibilidade à técnica | Baixa — protocolo robusto | Alta — umidade, tempo, pressão de fluído |
| Controle de umidade | Fácil — seco por natureza | Difícil — fluído tubular constante |
| Estabilidade a longo prazo | Alta — interface mineral estável | Menor — degradação hidrolítica e enzimática |
| Risco de nanoinfiltração | Mínimo | Presente — mesmo com bons adesivos |
| Previsibilidade clínica | Alta | Moderada a alta (depende da técnica) |
Resumo: colar em esmalte é como colar em superfície seca, mineral, uniforme e estável. Colar em dentina é como colar em superfície úmida, orgânica, variável e que se degrada com o tempo. As duas funcionam — mas uma é muito mais previsível que a outra.
Quando o preparo se mantém em esmalte (0,3-0,5 mm de desgaste, sem ultrapassar a junção esmalte-dentina), toda a superfície de cimentação está na condição ideal: mineral, seca, condicionável, estável. A longevidade é máxima.
Quando o preparo ultrapassa o esmalte — por necessidade clínica (cárie antiga, restauração prévia, fratura, descoloração profunda) ou por preparo excessivo — parte da interface passa a ser em dentina. A adesão ainda funciona, mas a margem de segurança diminui.
A literatura sugere que quando pelo menos 70% da superfície de cimentação está em esmalte, a taxa de sucesso dos laminados permanece alta (>95% em 10 anos). Quando essa proporção se inverte (mais dentina que esmalte), as taxas de falha aumentam. Isso não significa que laminados em dentina não funcionam — significa que a previsibilidade diminui.
Casos de no-prep (sem desgaste) ou preparo mínimo (restrito a esmalte) oferecem a melhor condição de adesão possível: 100% da superfície em esmalte. Isso explica por que lentes de contato dental (que são finas e exigem preparo mínimo) têm taxas de sobrevida superiores a facetas convencionais que requerem preparo mais profundo.
A interface esmalte-cimento é predominantemente mineral. Não há colágeno para degradar, não há fluído tubular para criar pressão, não há enzimas (MMPs) para atacar o adesivo. A adesão ao esmalte permanece essencialmente estável por décadas.
A camada híbrida está sujeita a dois processos de degradação:
Na prática, isso se manifesta como microinfiltração progressiva, sensibilidade tardia ou, em casos extremos, descimentação. Não é um fenômeno imediato — leva anos — mas é a razão pela qual laminados com mais esmalte na interface duram mais.
Nem todo caso permite preparo 100% em esmalte. Situações comuns:
Nesses casos, a adesão em dentina não é opcional — é necessária. O que muda é o protocolo:
O IDS é a aplicação de uma camada de adesivo sobre a dentina exposta imediatamente após o preparo — antes da moldagem e do provisório. A lógica:
O IDS é indicado sempre que houver dentina exposta significativa no preparo. Em preparos 100% em esmalte, não é necessário.
Você não precisa entender bioquímica de adesão. Mas precisa entender isto:
A ciência da adesão é a base de todo o tratamento com laminados cerâmicos. Preservar esmalte não é conservadorismo — é a decisão que maximiza a força de adesão, minimiza a degradação ao longo do tempo e oferece a melhor previsibilidade de resultado. No Protocolo Borille, essa ciência orienta cada decisão: quanto preparar, como cimentar, qual adesivo usar e quando aplicar IDS. O dente é o melhor substrato que existe — o trabalho do profissional é preservá-lo ao máximo.
Lente de Contato Dental, Dr. Marcelo Borille CRO-RS 14520. ORCID: 0009-0000-5422-207X. Rua 24 de Outubro, 1440/404 – Porto Alegre – RS. WhatsApp: (51) 999152255.
O esmalte é 96% mineral, seco e uniforme. O ácido cria microporos previsíveis que o adesivo preenche. A dentina é úmida, orgânica e variável — a adesão depende de infiltração em colágeno, que é sensível à técnica e sujeita a degradação.
Idealmente, sim. O preparo mínimo preserva esmalte e oferece a melhor superfície de adesão. Quando há dentina exposta (por restauração antiga, cárie, fratura), a adesão é possível com protocolo adequado.
É a aplicação de adesivo sobre a dentina imediatamente após o preparo, antes da moldagem. Sela túbulos (reduz sensibilidade), protege a dentina e melhora a força de adesão final.
Porque preserva esmalte — a superfície com melhor adesão, mais estável e mais previsível. Cada décimo de milímetro a mais de desgaste pode significar sair do esmalte e entrar na dentina, piorando a condição adesiva.
Sim. Não é tão previsível quanto em esmalte, mas com protocolo adequado (adesivo de 3 passos, clorexidina, IDS quando indicado) a adesão em dentina é clinicamente eficaz. A diferença é na margem de segurança a longo prazo.
Sim. A restauração é removida e substituída pela preparação para a lente. Se houver dentina exposta, o protocolo adesivo é adaptado para maximizar a adesão nessa área.