A Lógica Clínica Por Trás da Escolha

O IPS e.max Press (dissilicato de lítio, Ivoclar Vivadent) é o material principal para laminados cerâmicos no Protocolo Borille. Não é o único material que existe, nem é sempre o melhor para todos os casos — mas é o que oferece a melhor combinação de resistência, estética, previsibilidade e versatilidade para a maioria dos casos de lentes de contato dental. Esta página explica a lógica clínica por trás dessa escolha, compara com as alternativas e mostra quando outro material pode ser mais adequado.

O que é o IPS e.max Press

O IPS e.max Press é uma cerâmica vítrea reforçada por cristais de dissilicato de lítio (Li₂Si₂O₅), fabricada pela Ivoclar Vivadent. A peça é confeccionada pela técnica de injeção (lost-wax / cera perdida): o ceramista modela em cera, inclui em revestimento e injeta a cerâmica fundida sob pressão. Depois, a peça é finalizada com maquiagem e glaze (técnica stain) ou com aplicação de cerâmica de cobertura (técnica cut-back/layering).

O resultado é uma peça monolítica ou parcialmente estratificada, com resistência à flexão de 400-470 MPa, comportamento óptico semelhante ao esmalte dental e adesão previsível ao esmalte via condicionamento com ácido fluorídrico + silano.

e.max Press vs e.max CAD: mesma cerâmica, processos diferentes

Ambos são dissilicato de lítio da Ivoclar, mas o processo de fabricação difere:

Critérioe.max Press (injetada)e.max CAD (fresada)
ProcessoCera perdida + injeção sob pressãoFresagem em bloco pré-cristalizado + cristalização em forno
Resistência à flexão400-470 MPa360-400 MPa (após cristalização)
Adaptação marginalExcelente — injeção preenche detalhes finosMuito boa — limitada pelo diâmetro da fresa
Espessura mínima0,3 mm em laminadosLimitada pela fresagem (geralmente 0,4-0,5 mm)
Comportamento ópticoMaior variedade de ingots (HT, MT, LT, MO, HO, Impulse)Blocos com menos variações de translucidêz
PersonalizaçãoCeramista controla anatomia, textura, camadasDepende do software + acabamento manual
Tempo de produçãoMais longo (enceramento manual)Mais rápido (digital + fresagem)
Custo laboratorialGeralmente maior (trabalho manual)Geralmente menor (mais automatizado)
Indicação principalLaminados anteriores de alta estéticaCoroas, overlays, onlays, casos mais automatizáveis

Por que Press na maioria dos laminados: a injeção permite espessuras mais finas (importante em lentes), oferece mais opções de ingot para controle óptico, e a personalização pelo ceramista é superior. Em laminados anteriores, onde cada décimo de milímetro de espessura, cada nuance de translucidêz e cada detalhe de textura importam, o Press entrega mais do que o CAD.

O CAD tem seu lugar: em coroas unitárias, overlays, onlays e situações onde a velocidade e a reprodutibilidade digital são mais importantes que a personalização artesanal. Já usei CAD em casos específicos e o resultado é clinicamente bom — mas para laminados anteriores de alta estética, o Press é a minha escolha.

e.max Press vs feldspática: quando cada uma

A cerâmica feldspática (Eris, Creation, Noritake, etc.) é considerada por muitos ceramistas como a cerâmica mais estética que existe. E com razão: sua translucidêz, opalescência e fluorescência são as mais próximas do esmalte dental natural. Então por que não usar feldspática em todos os casos?

Critérioe.max PressFeldspática
Resistência à flexão400-470 MPa90-120 MPa
Estética máximaExcelente — especialmente com ingots HT e ImpulseSuperior — a melhor cerâmica em opalescência e translucidêz
Espessura mínima0,3 mm (com segurança)0,2-0,3 mm (possível, mas frágil)
Risco de fraturaBaixoMaior — material mais frágil
Indicação idealMaioria dos laminados (versatilidade)Facetas ultra-finas em esmalte íntegro, casos de máxima estética
Exigência do ceramistaAltaMuito alta — requer ceramista extremamente experiente
Tolerância a erroMaior — mais resistência compensa pequenas imperfeiçõesMenor — qualquer erro de manuseio pode fraturar
Condição ácidaHF 20s → padrão de condição bem definidoHF 60-90s → bom padrão
Previsibilidade clínicaAlta — grande volume de estudos de longo prazoAlta em mãos experientes, menor com ceramistas menos treinados

Quando uso feldspática

Nos casos de facetas ultra-finas (0,2-0,3 mm) sobre esmalte íntegro, onde a estética máxima é prioridade e o substrato claro permite alta translucidêz. São tipicamente casos de no-prep ou preparo mínimo em pacientes sem bruxismo e com oclusão favorável.

Por que não uso feldspática como padrão

Porque a resistência mecânica de 90-120 MPa exige condições ideais: esmalte íntegro, espessura adequada, oclusão favorável, ausência de parafunção. Na prática clínica, nem todos os casos oferecem essas condições. O e.max Press com 400-470 MPa oferece uma margem de segurança que permite trabalhar com mais versatilidade — substratos menos ideais, preparos ligeiramente mais extensos, pacientes com oclusão menos favorável — sem sacrificar estética de forma significativa.

A diferença estética entre um e.max Press HT bem maquiado e uma feldspática de qualidade é perceptível por ceramistas em condições controladas, mas dificilmente por pacientes na boca. A diferença de resistência é de 4x. O trade-off é claro.

Por que não uso zircônia para laminados

A zircônia multicamada (tipo Katana UTML, Prettau Anterior) evoluiu muito e oferece estética aceitável em coroas. Mas para laminados anteriores, a minha posição é: não uso. As razões:

  • Adesão: a zircônia não é condicionável com ácido fluorídrico. A adesão depende de primers específicos (MDP) e jateamento, que produzem adesão inferior à obtida com dissilicato de lítio condicionado + silano. Em laminados finos, onde a retenção mecânica é mínima, a qualidade da adesão é crítica.
  • Comportamento óptico: mesmo a zircônia multicamada não reproduz a translucidêz do esmalte natural como o dissilicato de lítio ou a feldspática. Em espessuras finas (0,3-0,5 mm), essa limitação é mais evidente.
  • Espessura: laminados em zircônia geralmente exigem espessura mínima maior para estética aceitável, o que pode significar mais preparo.
  • Evidência em laminados: a literatura científica sobre zircônia em laminados anteriores finos é muito mais limitada do que sobre dissilicato de lítio.

A zircônia é excelente para coroas posteriores, infraestruturas e situações de alta carga. Para laminados anteriores de alta estética, o dissilicato de lítio e a feldspática são superiores.

O sistema de ingots: a chave da versatilidade

Uma das maiores vantagens do e.max Press é o sistema de ingots. Cada ingot tem translucidêz, opacidade e fluorescência diferentes, permitindo ao ceramista ajustar o comportamento óptico às condições específicas de cada caso:

IngotCaracterísticaQuando usarSubstrato ideal
HTAlta translucidêzSubstrato claro (ND1-ND2), espessura finaClaro e uniforme
MTMédia translucidêzSubstrato médio (ND2-ND3), versatilidadeMédio
LTBaixa translucidêzSubstrato escuro (ND3-ND4), mascaramentoEscuro ou manchado
MOMédia opacidadeSubstrato muito escuro, núcleos metálicosMuito escuro
HOAlta opacidadeNúcleos metálicos escuros, coroas sobre implanteMetal ou muito escuro
ImpulseOpalescência aumentadaMáxima naturalidade em substrato favorávelClaro e uniforme

Essa variedade de ingots é o que permite calcular, via IPS e.max Shade Navigation App, a combinação exata de ingot + cimento para cada substrato e cor desejada. É uma precisão que o CAD (com menos variações de bloco) e a feldspática (sem sistema de ingots) não oferecem com a mesma sistematização.

O que diz a evidência científica

O IPS e.max Press é uma das cerâmicas mais estudadas na literatura odontológica. Alguns dados relevantes:

  • Sobrevida clínica: estudos clínicos de 5-10 anos reportam taxas de sobrevida de 95-97% para laminados em dissilicato de lítio. Estudos de até 15 anos mostram resultados consistentes.
  • Fratura: a principal causa de falha é fratura (não descimentação), geralmente associada a bruxismo não controlado ou preparo insuficiente em esmalte.
  • Adesão: o condicionamento com HF 5% por 20 segundos cria um padrão de microretentividade bem definido. Associado a silano e cimento resinoso, a força de adesão ao esmalte é consistentemente alta nos estudos.
  • Estabilidade de cor: a cerâmica vitrificada não absorve pigmentos. A estabilidade de cor a longo prazo é documentada.
  • Biocompatibilidade: cerâmica vítrea é material inerte. Não há relatos de reação adversa ao dissilicato de lítio na literatura.

Essa base científica é um dos motivos da escolha. Não é apenas preferência pessoal — é uma decisão amparada por evidência de longo prazo.

A árvore de decisão no Protocolo Borille

Na prática, a escolha do material segue esta lógica:

Caso padrão (maioria): laminados anteriores, 6-10 dentes, preparo em esmalte, substrato variado → IPS e.max Press (HT, MT ou LT conforme substrato).

Caso de máxima estética: no-prep ou preparo ultra-mínimo, esmalte íntegro, substrato claro, sem bruxismo, oclusão favorável, ceramista de referência disponível → feldspática pode ser considerada.

Caso digital/velocidade: quando o fluxo digital é prioritário ou o caso é mais automatizável (coroas, overlays) → e.max CAD.

Substrato muito escuro: núcleo metálico, escurecimento severo → e.max Press MO ou HO.

Posteriores de alta carga: coroas sobre implante, molares → zircônia (não para laminados anteriores).

O material não é dogma — é ferramenta. O e.max Press é a ferramenta mais versátil que tenho para laminados anteriores, por isso é a escolha principal. Mas a decisão final sempre considera o caso individual.

Para o dentista que está lendo

  • Press > CAD para laminados anteriores de alta estética: espessura mínima menor, mais opções de ingot, personalização superior
  • Feldspática > Press em estética pura, mas com 1/4 da resistência — reservar para condições ideais
  • Zircônia para laminados anteriores: adesão inferior + comportamento óptico limitado = não recomendo
  • Sistema de ingots (HT/MT/LT/MO/HO/Impulse) + SNA app = controle óptico sistemático
  • Condicionamento HF 5% por 20s + silano é o protocolo com melhor evidência para e.max
  • Sobrevida de 95-97% em 5-10 anos é a referência — exigir isso do seu material
  • O ceramista é tão importante quanto o material — Press medíocre em mãos medíocres = resultado medíocre
  • Não há material perfeito para todos os casos — há o material certo para cada caso

Perguntas frequentes sobre o e.max

Por que e.max Press e não outro material?

Oferece a melhor combinação de resistência (400-470 MPa), estética, adesão previsível, variedade de ingots e evidência científica de longo prazo. É o material mais versátil para laminados anteriores.

Qual a diferença entre e.max Press e e.max CAD?

Ambos são dissilicato de lítio, mas o Press é injetado (mais personalizável, espessura mínima menor, mais ingots) e o CAD é fresado (mais rápido, mais automatizado). Para laminados de alta estética, o Press é superior.

A porcelana feldspática não é mais bonita?

Em condições controladas, sim — tem a opalescência e translucidêz mais próximas do esmalte. Mas a resistência é 4x menor (90-120 MPa). É reservada para facetas ultra-finas em condições ideais.

Zircônia serve para lente de contato dental?

Não é a escolha ideal. A adesão ao esmalte é inferior (sem condicionamento ácido), o comportamento óptico é limitado em espessuras finas e a evidência para laminados anteriores é escassa. Zircônia é melhor para coroas posteriores.

O que são os ingots HT, LT, MO?

São pastilhas de cerâmica com diferentes níveis de translucidêz e opacidade. HT (alta translucidêz) para substratos claros, LT (baixa) para escuros, MO (média opacidade) para muito escuros. O ceramista escolhe o ingot ideal para cada caso.

O material garante o resultado?

Não sozinho. O material é a ferramenta — o resultado depende do planejamento, do ceramista, do protocolo de cimentação e dos cuidados do paciente. Material de qualidade com execução medíocre = resultado medíocre.

Conclusão

A escolha do material não é estetica vs resistência. É encontrar o equilíbrio entre ambos para cada caso. O IPS e.max Press oferece esse equilíbrio na maioria das situações clínicas: resistência suficiente para segurança, estética suficiente para naturalidade, versatilidade de ingots para controle óptico e evidência científica para previsibilidade. Quando o caso pede algo diferente, a decisão muda — mas a lógica permanece: escolher com base em critério clínico, não em preferência comercial.

Lente de Contato Dental, Dr. Marcelo Borille CRO-RS 14520. ORCID: 0009-0000-5422-207X. Rua 24 de Outubro, 1440/404 – Porto Alegre – RS. WhatsApp: (51) 999152255.