O Passo a Passo Completo

A cimentação adesiva é o momento mais crítico de todo o tratamento com lentes de contato dental. Um laminado perfeitamente confeccionado pode falhar se a cimentação for mal executada. E um laminado modesto pode durar décadas se a cimentação for impecável. O protocolo envolve preparo da superfície cerâmica, preparo da superfície dental, seleção do cimento, assentamento, fotopolimerização e remoção de excessos — cada etapa com lógica científica específica. Esta página detalha o protocolo usado no Protocolo Borille.

A lógica da cimentação: duas superfícies + um agente

A cimentação adesiva cria uma união entre três elementos: a superfície interna da cerâmica, a superfície do dente preparado e o cimento resinoso entre ambos. Cada superfície precisa de tratamento específico para que a adesão funcione. O cimento precisa ser compativel com ambos os lados.

A sequência geral:

1. Preparo da cerâmica (HF + lavagem + silano ± adesivo)

2. Preparo do dente (condicionamento ácido + adesivo — ou IDS prévio)

3. Aplicação do cimento + assentamento

4. Remoção de excessos + fotopolimerização

5. Ajuste oclusal + acabamento

Lado 1: Preparo da Superfície Cerâmica

Condicionamento com ácido fluorídrico (HF)

O ácido fluorídrico dissolve seletivamente a fase vítrea da cerâmica, criando microporosidades na superfície interna. Essas microporosidades são preenchidas pelo cimento resinoso, formando microretenções mecânicas. Cada tipo de cerâmica exige concentração e tempo diferentes:

CerâmicaHFTempoPadrão resultante
IPS e.max Press / CAD5%20 segundosMicroporosidades bem definidas, regulares
Feldspática5-10%60-90 segundosMicroporosidades mais profundas, mais fase vítrea dissolvida
ZircôniaNão condicionável com HFJateamento + primer (MDP)

Cuidado crítico: exceder o tempo de HF em e.max (>20s) cria erosão excessiva que enfraquece a superfície e reduz a força de adesão. Tempo a menos (<15s) não cria microporosidade suficiente. O tempo correto é inegociável.

Lavagem e neutralização

Após o condicionamento, a peça deve ser lavada abundantemente com água + jato de ar por pelo menos 30 segundos para remover resíduos de HF e precipitados (fluoretos de sílica). Alguns protocolos incluem banho ultrassônico com álcool isopropílico ou ácido fosfórico 37% por 60 segundos para limpeza adicional dos precipitados.

A peça deve estar limpa e seca antes da aplicação do silano. Qualquer resíduo de precipitado compromete a união química.

Silanização

O silano é o agente de união química entre a cerâmica (sílica) e o cimento (resina). Ele é uma molécula bif uncional: um lado reage com a sílica da cerâmica, o outro com a resina do cimento/adesivo.

Silano separado (Monobond Plus)

Aplicar camada fina com microbrush, aguardar reação (60 segundos), secar com jato de ar suave e morno. O Monobond Plus (Ivoclar) contém silano + fosfato + sulfeto, atuando como primer universal para cerâmicas vítreas e não vítreas.

Monobond Etch & Prime (alternativa)

Combina condicionamento ácido + silanização em uma etapa (autocondicionante cerâmico). Elimina o HF separado. Aplicar esfregando por 20 segundos, aguardar 40 segundos, lavar e secar. Indicado quando se quer simplificar ou eliminar HF do protocolo.

A escolha entre silano separado e Monobond Etch & Prime depende do caso e da preferência clínica. Ambos produzem resultados clinicamente eficazes.

Adesivo na cerâmica (opcional)

Após silanização, uma camada fina de adesivo pode ser aplicada na superfície interna da cerâmica (sem fotopolimerizar). Isso melhora o molhamento do cimento e pode melhorar a adesão. Não é obrigatório em todos os protocolos, mas é recomendado quando o cimento não contém componentes adesivos.

Lado 2: Preparo da Superfície Dental

O sistema adesivo: etch-and-rinse 3 passos

No Protocolo Borille, o sistema adesivo é sempre etch-and-rinse de 3 passos — o sistema com melhor evidência de longevidade tanto em esmalte quanto em dentina. Os 3 passos:

Passo 1: Condicionamento ácido
  • Esmalte: ácido fosfórico 37% por 30 segundos. Cria microporosidades uniformes na superfície do esmalte (padrão tipo I, II ou III). O esmalte condicionado fica com aparência branca e opaca.
  • Dentina (quando exposta): ácido fosfórico 37% por 15 segundos. Remove smear layer, abre túbulos dentinários e expõe a rede de colágeno. Tempo MENOR que esmalte — excesso de condicionamento danifica colágeno.

Técnica: aplicar primeiro no esmalte (30s), depois estender para dentina (15s). Lavar abundantemente por 15-20 segundos. Secar esmalte com jato de ar. Manter dentina úmida (não ressecar).

Se houver dentina exposta e IDS foi aplicado no dia do preparo, a superfície de IDS já está selada. No dia da cimentação: jatear IDS com óxido de alumínio 50µm suavemente, condicionar esmalte ao redor com H₃PO₄, aplicar adesivo sobre tudo.

Passo 2: Primer

Aplicar primer com microbrush em camada fina sobre esmalte condicionado e dentina (se houver). O primer contém monômeros hidrofilílicos que infiltram a rede de colágeno (dentina) e molham as microporosidades (esmalte). Aguardar tempo conforme fabricante, secar suavemente.

Passo 3: Adesivo (bond)

Aplicar adesivo com microbrush em camada uniforme e fina. O adesivo é hidrófobo e cria a camada que efetivamente une o cimento ao substrato. Fotopolimerizar conforme fabricante (geralmente 20 segundos por face).

Por que 3 passos e não simplificado? Os adesivos simplificados (2 passos ou all-in-one) combinam primer e bond em uma camada. Essa camada única tende a ser mais hidrofilílica, absorve mais água ao longo do tempo e degrada mais rápido — especialmente em dentina. O 3 passos separa a função hidrofilílica (primer) da hidrofóbica (bond), criando uma interface mais estável.

IDS (Immediate Dentin Sealing): quando e como

Quando o preparo expõe dentina, o IDS é aplicado sistematicamente no Protocolo Borille:

  • Quando: imediatamente após o preparo, antes da moldagem.
  • Como: condicionamento ácido da dentina (H₃PO₄ 15s) + clorexidina 2% por 60s (inibidor de MMPs) + primer + adesivo (3 passos) + fotopolimerização.
  • No dia da cimentação: jatear superfície de IDS com óxido de alumínio 50µm (baixa pressão, 2-3s) para reativar a superfície. Condicionar esmalte ao redor normalmente. Aplicar adesivo sobre tudo (IDS + esmalte condicionado).

O IDS cria a melhor condição possível de adesão em dentina: superfície recém-cortada, sem contaminação, colágeno exposto intacto. A evidência mostra força de adesão superior ao DDS (Delayed Dentin Sealing).

O Cimento: Seleção e Aplicação

Os cimentos usados no Protocolo Borille

CimentoCaracterística principalQuando usarCores disponíveis
Allcem Veneer APS (FGM)7 cores, fluorescência intensa, fotopolimerizável. Controle de excessos sob UV.Primeira escolha. Maioria dos laminados.A1, A2, A3, Trans, OW, XOW, E-Bleach M
Variolink Esthetic LC/DC (Ivoclar)Sistema integrado e.max. LC (foto) ou DC (dual).Sistema e.max quando se quer integração total Ivoclar. DC para peças espessas.Warm, Neutral, Cool + Light, Light+
RelyX Veneer (3M)Película mínima. Fotopolimerizável.Quando a espessura do cimento precisa ser mínima.TR, A1, A3, B0.5, B1, WO

Por que Allcem Veneer APS como primeira escolha

O Allcem Veneer APS (FGM) é a primeira escolha no Protocolo Borille por três razões:

  • 7 cores: a maior variedade de cores em cimento para facetas no mercado brasileiro. Permite ajuste fino da cor final.
  • Fluorescência intensa: o APS (Advanced Polymerization System) confere fluorescência que facilita a identificação e remoção de excessos sob luz UV (modo diagnóstico do fotopolimerizador). Excessos que seriam invisíveis sob luz normal brilham sob UV.
  • Fotopolimerizável: permite tempo de trabalho controlado. A peça pode ser posicionada, ajustada e os excessos removidos antes da polimerização.
[LINK: /fluorescencia-uv-lente-de-contato-dental/]

Try-in: a prova antes de colar

Antes da cimentação definitiva, as pastas try-in (que simulam a cor do cimento sem aderir) são usadas para verificar a cor final. O processo:

  • 1. Limpar o dente e a peça.
  • 2. Aplicar pasta try-in na cor pretendida na superfície interna da lente.
  • 3. Posicionar a lente no dente e avaliar a cor sob luz natural e sob luz do refletor.
  • 4. Testar 2-3 cores de try-in se necessário.
  • 5. Registrar a cor aprovada e fotografar para referência.

A pasta try-in não polimeriza — é removida antes da cimentação real. Serve exclusivamente para previsão de cor.

A Sequência Completa de Cimentação

Passo a passo no Protocolo Borille

#EtapaDetalhe
1Prova secaVerificar adaptação, contato proximal, margem, assentamento. Sem cimento.
2Try-inTestar cor do cimento com pastas try-in. Aprovar cor. Fotografar.
3Preparo da cerâmicaHF (5%, 20s para e.max) → lavar → secar → silano (60s) → secar → ± adesivo (não fotopolimerizar)
4IsolamentoIsolamento relativo com fios retratores, rolos de algodão, sugador. Controle de contaminação salivar.
5Preparo do denteH₃PO₄ 37% (esmalte 30s, dentina 15s) → lavar → secar esmalte / manter dentina úmida → primer → adesivo → fotopolimerizar
6Aplicação do cimentoCimento na cor aprovada na superfície interna da lente. Camada uniforme.
7AssentamentoPosicionar a lente com pressão digital controlada. De cervical para incisal.
8Remoção de excessos grosseirosMicrobrush e fio dental para excessos grandes. ANTES da fotopolimerização.
9Tack cureFotopolimerização curta (3-5s) para fixar a peça. Ainda permite remoção de excessos finos.
10Remoção de excessos finosSob luz UV (modo diagnóstico): cimento fluorescente brilha, facilitando identificação. Lâmina 12, sonda, fio.
11Fotopolimerização completa60s por face (vestibular, palatina/lingual, incisal). Ponta do fotopolimerizador o mais próximo possível.
12Remoção de excessos residuaisNova verificação sob UV. Lâmina 12, bisturi, tira de lixa nas proximais.
13Ajuste oclusalPapel carbono, verificação de contatos em MIH e movimentos excursivos.
14PolimentoBorrachas de polimento e pasta diamantada se necessário. Não remover glaze.
15Fotografia finalDocumentação do resultado. Referência para retornos.

Erros mais comuns na cimentação (e como evitar)

ErroConsequênciaComo evitar
HF tempo erradoExcesso: enfraquece cerâmica. Falta: adesão insuficiente.Cronometrar rigorosamente
Contaminação salivarAdesão comprometida, microinfiltraçãoIsolamento eficaz, aspiração constante
Excesso de cimento residualInflamação gengival, bolsa, sangramentoUV para identificar, lâmina 12, fio dental
Ressecar dentinaColapso do colágeno, adesão comprometidaManter úmida (moist bonding)
Fotopolimerização insuficienteCimento não polimeriza completamente, descolora, perde força60s/face, ponta próxima, verificar potência do aparelho
Pular try-inCor final diferente do esperadoSempre testar cor antes de colar
Não ajustar oclusãoContato alto → sensibilidade → fraturaPapel carbono em MIH e excursivos

Para o paciente: o que acontece na sessão de cimentação

A sessão de cimentação é a mais longa do tratamento — pode durar 2 a 4 horas dependendo do número de peças. O que você pode esperar:

  • Prova das peças: o dentista coloca cada lente no dente sem colar para verificar adaptação e cor.
  • Teste de cor: pastas coloridas são usadas para simular a cor final. Você participa da aprovação.
  • Isolamento: algodão e sugador mantêm a região seca durante a colagem.
  • Colagem: cada peça é colada individualmente com protocolo específico. Luz azul endurece o cimento.
  • Ajuste da mordida: após colar, o dentista verifica se a mordida está equilibrada.
  • Fotos: registro do resultado final.

A sessão é detalhada e minuciosa. Cada etapa tem razão de ser. A paciência nesse dia é o que garante que o resultado dure.

Para o dentista que está lendo

  • Etch-and-rinse 3 passos é o sistema com melhor evidência de longevidade — não simplificar por conveniência
  • HF em e.max: 5%, 20 segundos. Cronometrar. Sem negociação.
  • IDS sistemático quando há dentina exposta — a evidência de superioridade sobre DDS é consistente
  • Clorexidina 2% após condicionamento em dentina = inibidor de MMPs = longevidade da camada híbrida
  • Try-in SEMPRE antes de colar — não arriscar cor errada em peça definitiva
  • UV para remoção de excessos é o recurso mais subutilizado em cimentação de laminados
  • Tack cure (3-5s) antes da remoção fina de excessos — estabiliza sem impedir limpeza
  • 60s por face é o mínimo para fotopolimerização adequada de cimento foto sob cerâmica
  • Ajuste oclusal no dia é obrigatório — contato alto é a causa número um de fratura precoce

Conclusão

A cimentação adesiva não é “colar a peça”. É um protocolo de 15 etapas onde cada uma tem base científica. Pular etapas, simplificar por conveniência ou não controlar variáveis é comprometer a longevidade de um trabalho que levou semanas para ser planejado e confeccionado. No Protocolo Borille, a cimentação é tratada como o momento decisivo que é.

Lente de Contato Dental, Dr. Marcelo Borille CRO-RS 14520. ORCID: 0009-0000-5422-207X. Rua 24 de Outubro, 1440/404 – Porto Alegre – RS. WhatsApp: (51) 999152255.

FAQ do protocolo de cimentação

Quanto tempo dura a sessão de cimentação?

De 2 a 4 horas, dependendo do número de peças. Cada lente é colada individualmente com protocolo específico.

Dói colar a lente de contato dental?

Não. A cimentação é feita com anestesia local quando necessário. O processo em si não causa dor.

O que é try-in?

São pastas coloridas que simulam a cor do cimento final. Permitem ver como a lente vai ficar antes de colar definitivamente. Você participa da aprovação.

A cola da lente é definitiva?

Sim. O cimento resinoso cria uma união química e mecânica que é projetada para ser permanente. Remover uma lente cimentada requer procedimento específico.

Por que a sessão é tão longa?

Porque cada peça passa por prova, teste de cor, preparo da cerâmica, preparo do dente, cimentação, remoção de excessos, fotopolimerização e ajuste. Pular etapas compromete o resultado.

O que é a luz azul usada durante a colagem?

É o fotopolimerizador — emite luz com comprimento de onda específico que endurece (polimeriza) o cimento resinoso. Sem essa luz, o cimento não endurece.