A gengivoplastia é indicada antes das lentes de contato dental quando o contorno gengival está irregular, a coroa clínica é curta ou o paciente apresenta sorriso gengival. O procedimento remodela a gengiva para expor mais estrutura dental, equilibrar a linha do sorriso e criar condições para que as lentes tenham forma e proporção adequadas. Sem essa correção, colocar lentes sobre dentes que parecem curtos não resolve o problema — cria dentes quadrados. O tempo de espera entre a cirurgia e o início das lentes é de 60 a 90 dias, para estabilização completa da margem gengival.
Por que a gengiva interfere no resultado das lentes
A forma do dente visível depende tanto do dente quanto da gengiva ao redor. Quando a gengiva cobre mais dente do que deveria, o dente parece curto, quadrado e desproporcional. Isso acontece por diferentes razões, e cada uma exige abordagem específica.
Colocar lentes de porcelana sobre dentes que parecem curtos por excesso de gengiva é como colocar uma moldura bonita em um quadro cortado pela metade. O resultado é volumoso, desproporcional e, muitas vezes, artificial. A correção gengival antes das lentes é o que permite ao ceramista desenhar dentes com comprimento, largura e proporção reais.
Situações em que a gengivoplastia é indicada antes das lentes
Sorriso gengival
O sorriso gengival é quando o paciente mostra uma faixa de gengiva excessiva ao sorrir. As causas podem ser: erupção passiva alterada (a gengiva não migrou para a posição definitiva), excesso ósseo (o osso alveolar cobre mais dente do que deveria), lábio hiperativo (o lábio sobe mais que o normal), ou combinação dessas causas.
A abordagem muda conforme a causa. Quando o problema é gengival/ósseo, a gengivoplastia (com ou sem osteotomia) resolve. Quando o problema é labial, podem ser necessárias outras abordagens (toxina botulínica, por exemplo). Por isso, o diagnóstico da causa é essencial antes de operar.
Contorno gengival irregular
Níveis gengivais diferentes entre os dentes criam assimetria visível. Isso é especialmente problemático na região anterior, onde o zênite gengival (ponto mais alto da gengiva em cada dente) deve seguir um padrão harmônico: os centrais e caninos com zênite levemente deslocado para distal, os laterais levemente mais baixos.
A gengivoplastia equaliza esses níveis antes das lentes, para que o ceramista trabalhe sobre uma base simétrica.
Coroa clínica curta
Quando a gengiva cobre parte da coroa anatômica, o dente visível fica mais curto do que realmente é. A solução é expor a coroa real do dente. Dependendo da causa, pode ser suficiente remover gengiva (gengivoplastia simples) ou pode ser necessário remover gengiva e osso (aumento de coroa clínica com osteotomia).
Erupção passiva alterada
Após a erupção do dente, a gengiva deveria migrar para uma posição mais apical (para cima), expondo a coroa completa. Em alguns pacientes, essa migração não acontece — a gengiva permanece sobre o dente como se ele ainda estivesse nascendo. Esse é um dos diagnósticos mais comuns em jovens adultos com “dentes pequenos” que na verdade têm tamanho normal, apenas cobertos.
Dentes curtos
Gengivoplastia simples vs aumento de coroa clínica: qual a diferença
São dois procedimentos diferentes com indicações diferentes:
| Critério | Gengivoplastia simples | Aumento de coroa clínica |
| O que faz | Remove apenas tecido gengival (gengiva mole) | Remove gengiva + osso alveolar (osteotomia) |
| Quando indicada | Quando há gengiva em excesso SEM envolvimento ósseo | Quando o osso está muito próximo da junção esmalte-cemento e não há espaço biológico suficiente |
| Complexidade | Menor — procedimento mais simples | Maior — envolve retalho e remoção óssea |
| Cicatrização | Mais rápida (2-4 semanas de cicatrização inicial) | Mais lenta (cicatrização óssea + gengival, 8-12 semanas) |
| Tempo até as lentes | 60-90 dias para estabilização da margem | 90-120 dias para maturação completa |
| Risco de recídiva | Maior se houver osso próximo — a gengiva tende a voltar | Menor — a remoção óssea cria espaço definitivo |
O ponto crítico: se a gengivoplastia simples é feita onde deveria ser aumento de coroa, a gengiva volta a crescer em semanas ou meses — e a margem da lente fica exposta ou comprometida. O diagnóstico correto da relação gengiva-osso é o que define qual procedimento fazer. Isso exige sondagem clínica e, em muitos casos, radiografia periapical.
O espaço biológico: por que não se pode simplesmente “cortar gengiva”
Existe uma distância mínima entre a crista óssea e a margem da restauração que precisa ser respeitada — é o chamado espaço biológico (ou dimensão dos tecidos supracrestais). Essa distância, em média de 2 a 3 mm, é ocupada pelo epitélio juncional e pela inserção conjuntiva, que são as barreiras biológicas que protegem o osso.
Se a margem da lente invadir esse espaço, o organismo reage: inflamação crônica, reabsorção óssea, retração gengival ou formação de bolsa. Por isso, quando o osso está próximo demais da margem desejada, é preciso fazer osteotomia para criar espaço — não basta cortar gengiva.
Esse conceito é uma das razões pelas quais a gengivoplastia prévia às lentes precisa ser feita por profissional com conhecimento de periodontia, não apenas estética.
Como a gengivoplastia é feita no Protocolo Borille
No consultório, a gengivoplastia prévia às lentes é realizada com bisturi convencional e instrumental periodôntico, que oferece controle preciso do corte e permite remodelagem detalhada do contorno gengival.
Etapas do procedimento
- Diagnóstico: sondagem clínica para medir a distância da margem gengival à crista óssea. Radiografia periapical quando necessário. Definição se é gengivoplastia simples ou aumento de coroa.
- Planejamento da nova margem: marcação dos zênites gengivais desejados com sonda milimetrada. A posição ideal é definida com base nas proporções dentais e na simetria do sorriso.
- Anestesia local: infiltrativa na região.
- Incisão: com lâmina de bisturi (geralmente 15c), seguindo a marcação dos zênites. O tecido excedente é removido com cuidado para preservar a papilas interdentais.
- Osteotomia (quando indicada): retalho mucoperiostal, remoção de osso com cinzel ou broca sob irrigação, respeitando o espaço biológico. Sutura.
- Acabamento: remodelagem final do contorno com bisturi e cureta. O objetivo é criar um perfil gengival que antecipe a forma final dos dentes com lentes.
Cicatrização: o que esperar em cada fase
| Período | O que acontece | O que o paciente sente |
| Primeiras 48h | Formação de coágulo. Edema leve. Leve sangramento pode ocorrer. | Desconforto leve a moderado. Gerenciado com analgésico. |
| 7 dias | Tecido de granulação. Gengiva começa a cicatrizar. Cor avermelhada. | Melhora significativa. Alimentação quase normal. |
| 14-21 dias | Epitelização quase completa. Contorno gengival começa a se definir. | Sem desconforto. Gengiva rosada. |
| 30 dias | Cicatrização do tecido mole praticamente completa. | Aparência normal. Contorno ainda pode mudar. |
| 60-90 dias | Maturação da margem gengival. Posição final estável. | Gengiva estável. Pronta para moldagem das lentes. |
| 90-120 dias (com osteotomia) | Remodelamento ósseo completo. Margem definitiva. | Sem queixas. Momento ideal para iniciar lentes. |
Por que esperar 60-90 dias antes das lentes
Esse é um dos pontos mais importantes da página. A margem gengival não estabiliza imediatamente após a cirurgia. Nos primeiros 30 dias, o tecido ainda está em remodelamento. Entre 30 e 60 dias, a posição da margem pode mudar até 0,5-1 mm — o que, em laminados cerâmicos, é a diferença entre margem precisa e margem exposta.
Se as lentes forem moldadas antes da estabilização, a margem final pode ficar diferente da margem que existia no dia da moldagem. O resultado: lentes com margem curta (gengiva recuou mais) ou lentes que invadem o sulco (gengiva não recuou o esperado).
Resumo: 60-90 dias para gengivoplastia simples. 90-120 dias para aumento de coroa clínica com osteotomia. Não é impaciencia — é precisão.
Cuidados pós-operatórios
- Primeiras 24h: alimentação fria/morna, evitar bochechos vigorosos, não tocar a região com a língua.
- Higiene: escovação suave com escova ultra-macia na região. Bochecho com clorexidina 0,12% conforme prescrição (geralmente 7-14 dias).
- Medicamentos: analgésico e anti-inflamatório conforme prescrição. Antibiótico só quando indicado (osteotomia).
- Retorno: revisão em 7 dias para avaliação da cicatrização.
- Fumo: evitar. O tabagismo retarda significativamente a cicatrização e aumenta risco de complicações.
Lente dental em fumantes
Antes e depois: gengivoplastia + lentes
Os casos mais impactantes de antes e depois com lentes de contato dental frequentemente incluem gengivoplastia prévia. A correção gengival é o que permite a transformação de proporção — não apenas de cor.
Para o dentista que está lendo
Alguns pontos que valem reforço para colegas que planejam laminados com correção gengival:
- Sondagem + radiografia antes de decidir gengivoplastia simples vs aumento de coroa
- Respeitar o espaço biológico — 3 mm da crista óssea à margem restauradora como referência
- Marcar zênites com sonda milimetrada, não a olho
- Preservar papilas — a perda de papila é o problema estético mais difícil de resolver
- Não moldar antes de 60 dias (simples) ou 90 dias (osteotomia)
- Documentar fotograficamente: antes da cirurgia, 7 dias, 30 dias, dia da moldagem
- Comunicar ao ceramista a posição final da margem gengival com foto + moldagem
Perguntas frequentes sobre a gengivoplastia
Depende. Se a gengiva está irregular, cobre dente demais ou o paciente tem sorriso gengival, a gengivoplastia é indicada para criar proporções adequadas para as lentes. Nem todo caso precisa.
De 60 a 90 dias para gengivoplastia simples. De 90 a 120 dias quando há osteotomia (aumento de coroa clínica). Esse prazo permite estabilização da margem gengival.
O procedimento é feito sob anestesia local. O pós-operatório costuma ser leve a moderado, gerenciado com analgésico. A maioria dos pacientes retoma atividades normais em 24-48 horas.
A gengivoplastia remove apenas gengiva. O aumento de coroa clínica remove gengiva e osso. A escolha depende de onde está o osso em relação à margem desejada. Sem espaço biológico suficiente, só cortar gengiva não resolve — ela volta.
É quando o paciente mostra uma faixa excessiva de gengiva ao sorrir. As causas podem ser gengiva em excesso, osso próximo demais da margem, lábio hiperativo ou combinação dessas. O diagnóstico da causa define o tratamento correto.
Pode, mas a cicatrização é mais lenta e menos previsível. O tabagismo compromete a vascularização e aumenta o risco de complicações. O prazo até as lentes pode ser maior.
Pode acontecer quando o osso está próximo demais e não foi removido (gengivoplastia simples onde deveria ser aumento de coroa). Com diagnóstico correto e técnica adequada, a recídiva é rara.
Próximo passo
Se você tem sorriso gengival, dentes que parecem curtos ou contorno gengival irregular e está pensando em lentes de porcelana, o primeiro passo não é a lente — é avaliar a gengiva. Em muitos casos, a correção gengival é o que torna o resultado das lentes possível e proporcional.
Lente de Contato Dental, Dr. Marcelo Borille CRO-RS 14520. ORCID: 0009-0000-5422-207X. Rua 24 de Outubro, 1440/404 – Porto Alegre – RS. WhatsApp: (51) 999152255.
