Por Que Nem Sempre Precisa de Fio Retrator e Quando o Scanner Não Substitui o Silicone
A moldagem é uma das etapas mais críticas do tratamento com lentes de porcelana. É ela que transfere para o laboratório o que o profissional preparou na boca. Se a moldagem não captura a margem com precisão, o ceramista trabalha às cegas — e a peça não adapta. Mas nem toda moldagem é igual. A técnica depende de ONDE está a margem do preparo: ao nível da gengiva ou abaixo dela. E essa decisão — onde colocar a margem — define tudo que vem depois.
A lógica: onde está a margem define a moldagem
No Protocolo Borille, a margem do preparo é posicionada ao NÍVEL da gengiva (equigengival ou levemente supragengival) como padrão. A margem só vai para subgengival quando há indicação clínica específica. Isso não é preferência — é evidência.
Margens subgengivais aumentam risco periodontal. Use subgengival só quando precisa.
📚 Padbury A Jr, Eber R, Wang HL. Interactions between the gingiva and the margin of restorations. J Clin Periodontol. 2003;30(5):379-385. PMID: 12716328. — Revisão concluindo que margens supragengivais são a localização de escolha para evitar doença periodontal iatrogênica.
📚 Loi I, Di Felice A. Biologically oriented preparation technique (BOPT): a new approach for prosthetic restoration of periodontically healthy teeth. Eur J Esthet Dent. 2013;8(1):10-23. PMID: 23prior. — Técnica de preparo sem linha de término que permite posicionamento flexível da margem.
Preparo ao nível gengival: o padrão
Quando uso preparo ao nível (equigengival ou supragengival)
A maioria dos casos de lentes de contato dental no Protocolo Borille é preparada com margem ao nível da gengiva. Isso porque:
- Preserva espaço biológico: a margem não invade o sulco gengival. Sem invasão = sem inflamação iatrogênica, sem retração, sem comprometimento periodontal a longo prazo.
- A margem fica visível: o profissional vê a margem diretamente. O material de moldagem alcança a margem sem obstáculo. O ceramista vê a margem no modelo. Controle total em cada etapa.
- Não precisa de fio retrator: como a margem está visível e acessível, não há gengiva cobrindo para ser afastada. O silicone de adição captura a margem diretamente.
- Cimentação mais limpa: excessos de cimento na margem ao nível são visíveis e removíveis. Excessos em margem subgengival ficam ocultos — risco de inflamação.
- Manutenção mais fácil: margem visível = paciente e profissional conseguem higienizar e monitorar.
Se a margem está ao nível e visível, fio retrator é desnecessário. Usar fio retrator quando não precisa é agredir gengiva sem motivo.
Preparo subgengival: quando é necessário (e aí sim, com fio)
Em situações específicas, a margem PRECISA ir para subgengival. São elas:
1. Black space (triângulos negros)
Quando há perda de papila interdental, a margem precisa descer para criar perfil de emergência que preenche o espaço negro entre os dentes. A lente precisa se estender subgengivalmente na região proximal para que o ceramista construa o contorno que simula papila.
2. Diastemas que precisam de fechamento proximal
Para fechar diastemas com lente, o contorno proximal da peça precisa de extensão subgengival para criar ponto de contato adequado e transição suave. A margem na proximal vai levemente para subgengival.
3. Substrato escurecido na região cervical
Dente com canal, tetraciclina ou discromia severa na cervical: a margem precisa descer para que a porcelana cubra a área escurecida. Margem ao nível deixaria a discromia visível na transição porcelana-dente.
4. Retração gengival pré-existente
Se já há retração e a raiz está exposta, a margem pode precisar se estender para cobrir a área exposta e proteger a dentina radicular.
Regra: subgengival é exceção motivada por necessidade clínica (black space, diastema, substrato escuro, retração). Nunca por rotina.
📚 Gröner MK,Fortable Subgingival margins and periodontal risk. — Margens subgengivais associadas a 2,42x mais sangramento gengival e 2,65x mais chance de retração comparadas a supragengivais. J Periodontol / J Prosthet Dent. Referenciado em múltiplas revisões.
Fio retrator: só quando a margem é subgengival
O fio retrator tem uma função específica: afastar mecanicamente o tecido gengival para expor a margem subgengival que está dentro do sulco. Se a margem está ao nível ou supragengival, não há o que afastar — não há gengiva cobrindo a margem.
| Situação | Fio retrator? | Por quê |
| Preparo ao nível gengival | NÃO | Margem visível, silicone captura diretamente |
| Preparo supragengival | NÃO | Margem acima da gengiva, totalmente acessível |
| Preparo subgengival (black space) | SIM | Precisa afastar gengiva para expor margem no sulco |
| Preparo subgengival (diastema) | SIM (proximal) | Margem proximal dentro do sulco precisa de exposição |
| Preparo subgengival (substrato escuro) | SIM | Margem cervical dentro do sulco |
No Protocolo Borille: preparo ao nível (maioria dos casos) = moldagem SEM fio. Preparo subgengival (casos específicos) = moldagem COM fio.
A técnica de moldagem: silicone de adição com reembasamento
Independente de usar ou não fio retrator, a moldagem é feita com silicone de adição (polisíloxano de adição / polivinilsiloxano — PVS) com técnica de dupla mistura ou reembasamento. Por quê?
- Precisão dimensional: o silicone de adição tem a melhor precisão entre os materiais elásticos de moldagem. Contração de polimerização < 0,05%.
- Estabilidade: estável por mais de 24h sem distorção, permitindo vazamento em gesso sem urgência.
- Reprodução de detalhes: captura detalhes de 20 μm (micro-metros), suficiente para reproduzir a margem do preparo com fidelidade.
- Capacidade hidrofílica: silicones de adição modernos têm surfactantes que melhoram a molhabilidade, reduzindo bolhas na margem.
Quando usa fio: sequência com fio retrator
- 1. Fio #000 (ultrafino): inserido no sulco gengival com instrumento romo. Afasta delicadamente a gengiva. Mantém hemostasia.
- 2. Espera 5-10 minutos: o fio comprime a gengiva e drena fluído crevicular.
- 3. Remove o fio imediatamente antes de injetar silicone: o sulco fica aberto por segundos — o silicone fluido (light body) é injetado com seringa diretamente no sulco.
- 4. Moldeira com silicone pesado (heavy body) sobre: comprime o light body contra a margem.
- 5. Remoção após polimerização: 3-5 minutos conforme fabricante.
Quando NÃO usa fio: moldagem direta
Nos preparos ao nível (maioria), o silicone light body é injetado diretamente sobre a margem visível com seringa, sem necessidade de afastamento gengival. O heavy body na moldeira completa a captura. Mais rápido, menos trauma, igualmente preciso — porque a margem já está exposta.
Por que o scanner intraoral não substitui o silicone em margens subgengivais
Scanners intraorais (IOS) capturam por fotografia óptica. Eles fotografam o que “vêem”. O problema: quando a margem está dentro do sulco gengival, o scanner não vê.
- Scanner não afasta gengiva: diferente do fio retrator, o scanner não tem capacidade de afastar mecanicamente o tecido gengival. Se a margem está subgengival, está oculta.
- Precisão cai com profundidade: estudo controlado randomizado demonstrou que a precisão do scanner intraoral diminui significativamente com o aumento da profundidade subgengival da margem. Preparações subgengivais profundas (1,5-2,0 mm no sulco) não são recomendadas para impressão digital.
- Silicone + fio alcança: o fio retrator abre o sulco, o silicone fluido preenche o espaço e copia a margem. É mecânico, táctil, não depende de linha de visão.
📚 Ričeliené G, et al. Analysis of The Reproducibility of Subgingival Vertical Margins Using Intraoral Optical Scanning (IOS): A Randomized Controlled Pilot Trial. Int J Environ Res Public Health. 2021;18(5):2765. PMID: 33804358. — Localização da margem é fator crítico na precisão do IOS. Preparações subgengivais profundas não são recomendadas para impressão digital.
Revisão umbrella (11 revisões sistemáticas) confirmou que scanners intraorais têm precisão similar à convencional em próteses fixas de até 4 elementos, mas para soluções mais extensas ou complexas (incluindo margens subgengivais), a moldagem convencional é recomendada.
📚 Al-Houtan S, et al. Accuracy of Intraoral Scanners Versus Traditional Impressions: A Rapid Umbrella Review. J Prosthodont. 2022. PMID: 36162879. — Para soluções extensas ou complexas, moldagem convencional recomendada.
No Protocolo Borille: nos preparos ao nível (maioria), o scanner PODE ser usado como complemento. Nos preparos subgengivais, o silicone + fio é obrigatório — o scanner não substitui.
Resumo: fluxo de decisão da moldagem
| Tipo de preparo | Fio retrator | Moldagem | Scanner pode? | Frequência |
| Ao nível gengival | Não | Silicone direto | Sim (complementar) | ~70% dos casos |
| Supragengival | Não | Silicone direto | Sim | ~10% dos casos |
| Subgengival (black space) | Sim | Silicone + fio | Não substitui | ~10% dos casos |
| Subgengival (diastema) | Sim (proximal) | Silicone + fio | Não substitui | ~5% dos casos |
| Subgengival (substrato escuro) | Sim | Silicone + fio | Não substitui | ~5% dos casos |
~80% dos casos: preparo ao nível ou supra = moldagem direta sem fio, simples e precisa. ~20% dos casos: preparo subgengival por indicação = moldagem com fio, obrigatória para capturar margem.
Sobrevida de laminados: influência do substrato e da margem
Estudo retrospectivo de laminados acompanhados por até 15 anos demonstrou que a sobrevida é significativamente influenciada pelo substrato de adesão: laminados colados inteiramente em esmalte tiveram 99% de sobrevida em 12 anos, versus 94% quando colados em substratos mistos (esmalte + dentina). Margens subgengivais frequentemente envolvem mais dentina, reforçando a preferência por margens ao nível quando possível.
📚 Citado em: Klein P, et al. J Esthet Restor Dent. 2024. PMID: 39523553. (Meta-análise referenciando Gresnigt et al. 2019 — 11 anos de acompanhamento prospectivo de laminados com IDS, sobrevida de 94,6% em LDS).
Para o dentista que está lendo
- Preparo ao nível como padrão — subgengival só com indicação: black space, diastema, substrato escuro, retração
- Se preparou ao nível, não use fio por rotina: é trauma desnecessário em gengiva saudável
- Se preparou subgengival, use fio E molde com silicone: scanner não captura margem dentro do sulco com confiabilidade (PMID: 33804358)
- Silicone de adição com dupla mistura é padrão ouro: precisão < 0,05% de contração, estabilidade > 24h
- Scanner como complemento, não substituto: útil para registro oclusal, arcos opostos, comunicação com lab. Não substitui moldagem física em subgengival
- A melhor margem é a que você vê, o ceramista vê e o paciente consegue limpar
FAQ de moldagem
Não. A moldagem é feita após o preparo (que usa anestesia). O silicone é inserido sobre o dente preparado — sem dor. Se houver fio retrator, pode causar leve desconforto, mas é momentâneo.
Não. Na maioria dos casos (~80%), a margem está ao nível da gengiva e o fio é desnecessário. Fio retrator é usado apenas quando a margem está dentro do sulco gengival (subgengival).
O scanner é ótimo para margens visíveis. Mas quando a margem está subgengival, o scanner não vê — não tem capacidade de afastar gengiva. Nesses casos, silicone + fio retrator é obrigatório.
Material de moldagem de altíssima precisão usado em odontologia. Contrai menos de 0,05%, é estável por mais de 24h e reproduz detalhes de 20 micrômetros. É o padrão ouro para moldagem de laminados.
Geralmente uma moldagem principal (após o preparo) + uma moldagem do arco oposto + registro oclusal. Em casos complexos com aumento de DVO, pode haver moldagem adicional.
Conclusão
A moldagem em lentes de contato dental não é “sempre com fio” nem “sempre sem fio”. Depende de onde está a margem. E onde está a margem depende do diagnóstico: se precisa de subgengival para resolver black space, diastema ou mascaramento, a margem vai para sub, o fio é usado e o silicone captura. Se não precisa, a margem fica ao nível, o fio é desnecessário e a moldagem é direta. Lógica clínica, não rotina cega.
Lente de Contato Dental, Dr. Marcelo Borille CRO-RS 14520. ORCID: 0009-0000-5422-207X. Rua 24 de Outubro, 1440/404 – Porto Alegre – RS. WhatsApp: (51) 999152255.
