Evidência Científica
Atualizado em 1 de setembro de 2026
As referências por trás de cada decisão em lente de contato dental
Cada decisão clínica que tomamos tem base na literatura científica. Esta página reúne as revisões sistemáticas, meta-análises e ensaios clínicos publicados em periódicos indexados no PubMed que fundamentam o Protocolo Borille. Não são opiniões. São dados — com o que eles mostram e também com o que eles não mostram. Se a evidência mudar, mudamos junto.
Dr. Marcelo Borille — CRO-RS 14520 — ORCID: 0009-0000-5422-207X
1. Sobrevida de laminados cerâmicos em dissilicato de lítio
Decisão: e.max Press como material de primeira escolha para laminados anteriores.
A meta-análise mais recente e abrangente sobre laminados cerâmicos avaliou 29 estudos clínicos com acompanhamento mínimo de 1 ano. A sobrevida combinada aos 10,4 anos foi de 96,13% para feldspática, 93,70% para leucita reforçada e 96,81% para dissilicato de lítio.
Os autores registram que não houve diferença de sobrevida entre os materiais. A vantagem do dissilicato aparece nas taxas de complicação, e aí a diferença é grande: complicações técnicas de 6,1% contra 41,48% da feldspática e 29,87% da leucita; estéticas de 1,9% contra 19,64% e 17,89%; biológicas de 0,45% contra 6,51% e 4,4%.
Ou seja: as três cerâmicas duram praticamente o mesmo. O dissilicato dá menos trabalho ao longo do caminho. É por isso que é a primeira escolha aqui — não porque as outras falhem mais, mas porque exigem mais intervenções ao longo dos anos.
? Klein P, Spitznagel FA, Zembic A, e cols. Survival and Complication Rates of Feldspathic, Leucite-Reinforced, Lithium Disilicate and Zirconia Ceramic Laminate Veneers: A Systematic Review and Meta-Analysis. J Esthet Restor Dent. 2025;37(3):601-619. PMID: 39523553. doi:10.1111/jerd.13351
2. e.max Press versus e.max CAD: adaptação marginal e desempenho clínico
Decisão: Press para laminados anteriores. CAD reservado para coroas e peças posteriores.
Revisão sistemática de 2025 comparou laminados de dissilicato confeccionados por pressão a quente e por fresagem CAD/CAM. De 401 registros triados, oito estudos foram incluídos. As peças prensadas demonstraram adaptação marginal superior tanto em avaliação clínica quanto laboratorial, e sobrevida maior em acompanhamento de até 10 anos. As peças fresadas apresentaram melhor ajuste interno e eficiência de fluxo de trabalho.
Ressalva dos autores: apenas um dos oito estudos teve baixo risco de viés, e a avaliação GRADE rebaixou a maioria dos desfechos para certeza baixa ou muito baixa. A conclusão é que as duas técnicas oferecem resultados satisfatórios com seleção de caso e protocolo adesivo adequados. A preferência pela prensagem aqui é uma escolha informada, não uma verdade estabelecida.
? Sudharson NA, Bali P, Thomas PM, Kurian N, Varghese KG. Clinical Performance and Survival Outcomes of Milled Versus Pressed Lithium Disilicate Veneers: A Systematic Review. J Esthet Restor Dent. 2025;37(12):2590-2600. PMID: 41024714. doi:10.1111/jerd.70038
3. Immediate Dentin Sealing: força de adesão superior ao selamento tardio
Decisão: IDS sistemático sempre que há dentina exposta no preparo.
Meta-análise incluindo 21 estudos laboratoriais comparou IDS e DDS (Delayed Dentin Sealing). O IDS melhorou significativamente a força de adesão à dentina, tanto imediatamente (p < 0,001) quanto após envelhecimento (p = 0,001).
A análise por subgrupos é o achado que orienta o protocolo: a melhoria a longo prazo aparece especificamente com adesivo etch-and-rinse de 3 passos (p < 0,001) ou com adesivo somado a camada de resina flow (p = 0,01). Com etch-and-rinse de 2 passos (p = 0,07) ou self-etch de 1 passo (p = 0,15), o IDS não mostrou vantagem estatisticamente significativa. Ou seja: fazer IDS com adesivo simplificado é fazer a etapa sem colher o benefício.
? Hardan L, Devoto W, Bourgi R, Cuevas-Suárez CE, e cols. Immediate Dentin Sealing for Adhesive Cementation of Indirect Restorations: A Systematic Review and Meta-Analysis. Gels. 2022;8(3):175. PMID: 35323288. doi:10.3390/gels8030175
Revisão sistemática independente, com 60 artigos analisados, confirmou que o IDS melhora a força de adesão e reduz os efeitos negativos dos materiais provisórios sobre a durabilidade da interface. Adesivos com carga ou combinações com resina flow são preferidos para proteger a camada de IDS dos procedimentos de condicionamento subsequentes.
? Ozer F, Batu Eken Z, Hao J, Tuloglu N, Blatz MB. Effect of Immediate Dentin Sealing on the Bonding Performance of Indirect Restorations: A Systematic Review. Biomimetics (Basel). 2024;9(3):182. PMID: 38534867. doi:10.3390/biomimetics9030182
4. Etch-and-rinse de 3 passos: desempenho clínico superior
Decisão: etch-and-rinse de 3 passos em todos os laminados. Nunca simplificar.
Meta-análise de seis estudos, oriundos de cinco ensaios clínicos randomizados, comparou adesivos self-etch e etch-and-rinse quanto à taxa de falha. O resultado foi favorável ao etch-and-rinse, com tamanho de efeito Cohen H de 0,406 (IC 95%: 0,100 a 0,713; p = 0,009). As falhas foram atribuídas majoritariamente a adaptação marginal, o que sugere interface menos estável nos self-etch.
Duas ressalvas dos próprios autores: o tamanho de efeito é baixo, e a análise GRADE atribuiu certeza muito baixa à evidência. O gráfico em funil detectou viés importante, com todos os estudos fora da área esperada. A preferência pelo etch-and-rinse aqui se apoia nessa evidência somada ao achado da meta-análise de IDS acima, que mostra o benefício do selamento dentinário concentrado justamente nesse tipo de adesivo.
Vale registrar também que esse estudo avaliou restaurações de resina composta em dentes posteriores, não laminados cerâmicos anteriores. A extrapolação para laminados é razoável em termos de comportamento da interface adesiva, mas não é evidência direta.
? Vieira BR, Dantas ELA, Cavalcanti YW, Santiago BM, Sousa FB. Comparison of Self-Etching Adhesives and Etch-and-Rinse Adhesives on the Failure Rate of Posterior Composite Resin Restorations: A Systematic Review and Meta-Analysis. Eur J Dent. 2022;16(2):258-265. PMID: 34808690. doi:10.1055/s-0041-1736332
5. Condicionamento com ácido fluorídrico: protocolo por material
Decisão: HF 5% por 20 segundos para e.max, conforme o fabricante. Concentração maior e tempo mais longo para feldspática.
Para a feldspática, um estudo com 80 blocos de VITA Mark II testou concentração de HF (5% e 10%), tempo (60 e 120 segundos) e uso de ácido fosfórico pós-condicionamento, com cimento AllCem (FGM) e armazenamento de 90 dias antes do ensaio de cisalhamento.
Apenas o fator concentração foi significativo (p = 0,02): o HF a 10% produziu força de adesão maior que o HF a 5%. O tempo de condicionamento, seja 60 ou 120 segundos, não influenciou o resultado. E a limpeza com ácido fosfórico seguida de bicarbonato de sódio não comprometeu a adesão — o que valida essa etapa do protocolo como segura.
? Moura DMD, Araújo AMM, Souza KB, Veríssimo AH, Tribst JPM, Souza ROAE. Hydrofluoric acid concentration, time and use of phosphoric acid on the bond strength of feldspathic ceramics. Braz Oral Res. 2020;34:e018. PMID: 32187304. doi:10.1590/1807-3107bor-2020.vol34.0018
Para o dissilicato de lítio, o protocolo seguido é o recomendado pelo fabricante — HF 5% por 20 segundos. Tempos superiores estão associados a redução da resistência flexural do e.max na literatura de materiais, embora eu não tenha aqui uma referência indexada que sustente essa afirmação com o rigor das demais desta página.
6. Fotopolimerização: tempo de exposição e grau de conversão
Decisão: exposição localizada e prolongada por dente, sem movimentar a ponta.
Estudo que avaliou justamente o AllCem Veneer APS (FGM) sob cerâmica de dissilicato de 0,5 mm demonstrou que a interposição da cerâmica reduziu a irradiância recebida pelo cimento em aproximadamente 50%. A exposição localizada de 40 segundos por dente produziu grau de conversão e microdureza Knoop significativamente superiores à exposição de 10 segundos.
O achado mais direto para a prática: movimentar o fotopolimerizador durante a polimerização não é recomendado. Varrer a ponta pelos seis dentes com tempo total de 10 segundos produziu os piores resultados de conversão e dureza do estudo.
? Bragança GF, Vianna AS, Neves FD, Price RB, Soares CJ. Effect of exposure time and moving the curing light on the degree of conversion and Knoop microhardness of light-cured resin cements. Dent Mater. 2020;36(11):e340-e351. PMID: 32950244. doi:10.1016/j.dental.2020.08.016
Estudo complementar avaliou o grau de conversão através de cerâmicas de diferentes espessuras e translucidez. Peças de 0,5 mm e 1,0 mm não comprometeram a conversão em relação ao controle. A partir de 1,5 mm a atenuação passa a ser relevante, e o e.max LT foi o único material que diferiu do controle nessa espessura. Como os laminados deste protocolo ficam entre 0,3 e 0,5 mm, a atenuação não é fator limitante nos casos habituais.
? Runnacles P, Correr GM, Baratto Filho F, Gonzaga CC, Furuse AY. Degree of conversion of a resin cement light-cured through ceramic veneers of different thicknesses and types. Braz Dent J. 2014;25(1):38-42. PMID: 24789290. doi:10.1590/0103-6440201302200
7. Regressão do clareamento: por que não clarear o substrato dos dentes que receberão lentes
Decisão: clareamento apenas nos vizinhos e na arcada oposta. Ingot e cimento calculados para a cor natural do substrato.
Revisão sistemática com 24 estudos, registrada no PROSPERO sob CRD42022360530, avaliou o prognóstico do clareamento caseiro. A maioria dos autores relata que a cor se mantém estável entre 1 e 2,5 anos, independentemente do agente clareador ou da forma de administração, e que descolorações severas apresentam maior grau de recidiva.
A implicação para laminados é direta: se o ingot e o cimento forem escolhidos tendo como referência um substrato clareado, a leitura óptica do conjunto muda quando essa cor regride. O resultado que estava certo no dia da cimentação deixa de estar dois anos depois.
? Fioresta R, Melo M, Forner L, Sanz JL. Prognosis in home dental bleaching: a systematic review. Clin Oral Investig. 2023;27(7):3347-3361. PMID: 37273018. doi:10.1007/s00784-023-05069-0
Ensaio clínico randomizado com 20 pacientes em desenho de boca dividida comparou clareamento caseiro com peróxido de carbamida a 15% e clareamento de consultório com peróxido de hidrogênio a 38%. Após 6 meses, houve diferença significativa no efeito rebote entre as técnicas, com regressão mais acentuada no grupo de consultório. Os autores registram, porém, que a regressão em direção à cor inicial foi equivalente nos dois grupos ao fim do período.
? Moghadam FV, Majidinia S, Chasteen J, Ghavamnasiri M. The degree of color change, rebound effect and sensitivity of bleached teeth associated with at-home and power bleaching techniques: A randomized clinical trial. Eur J Dent. 2013;7(4):405-411. PMID: 24932113. doi:10.4103/1305-7456.120655
Referências compiladas
- Klein P, Spitznagel FA, Zembic A, e cols. J Esthet Restor Dent. 2025;37(3):601-619. PMID: 39523553. doi:10.1111/jerd.13351 — sobrevida de 96,81% para dissilicato aos 10,4 anos, sem diferença entre materiais; vantagem em taxas de complicação.
- Sudharson NA, Bali P, Thomas PM, Kurian N, Varghese KG. J Esthet Restor Dent. 2025;37(12):2590-2600. PMID: 41024714. doi:10.1111/jerd.70038 — prensado com adaptação marginal superior; certeza da evidência baixa a muito baixa.
- Hardan L, Devoto W, Bourgi R, Cuevas-Suárez CE, e cols. Gels. 2022;8(3):175. PMID: 35323288. doi:10.3390/gels8030175 — IDS melhora adesão; benefício de longo prazo concentrado em etch-and-rinse de 3 passos.
- Ozer F, Batu Eken Z, Hao J, Tuloglu N, Blatz MB. Biomimetics (Basel). 2024;9(3):182. PMID: 38534867. doi:10.3390/biomimetics9030182 — 60 artigos; IDS reduz efeito negativo de provisórios.
- Vieira BR, Dantas ELA, Cavalcanti YW, Santiago BM, Sousa FB. Eur J Dent. 2022;16(2):258-265. PMID: 34808690. doi:10.1055/s-0041-1736332 — etch-and-rinse com Cohen H de 0,406; certeza muito baixa.
- Moura DMD, Araújo AMM, Souza KB, e cols. Braz Oral Res. 2020;34:e018. PMID: 32187304. doi:10.1590/1807-3107bor-2020.vol34.0018 — HF a 10% superior a 5% em feldspática; ácido fosfórico pós-HF não compromete adesão.
- Bragança GF, Vianna AS, Neves FD, Price RB, Soares CJ. Dent Mater. 2020;36(11):e340-e351. PMID: 32950244. doi:10.1016/j.dental.2020.08.016 — 40 s localizados superiores a 10 s com AllCem Veneer APS; não movimentar a ponta.
- Runnacles P, Correr GM, Baratto Filho F, Gonzaga CC, Furuse AY. Braz Dent J. 2014;25(1):38-42. PMID: 24789290. doi:10.1590/0103-6440201302200 — conversão preservada até 1,0 mm; atenuação relevante a partir de 1,5 mm.
- Fioresta R, Melo M, Forner L, Sanz JL. Clin Oral Investig. 2023;27(7):3347-3361. PMID: 37273018. doi:10.1007/s00784-023-05069-0 — estabilidade de cor entre 1 e 2,5 anos.
- Moghadam FV, Majidinia S, Chasteen J, Ghavamnasiri M. Eur J Dent. 2013;7(4):405-411. PMID: 24932113. doi:10.4103/1305-7456.120655 — efeito rebote mais rápido no clareamento de consultório aos 6 meses.
Todas as referências acima foram verificadas individualmente no PubMed. Cada PMID e DOI leva ao artigo citado. Onde a evidência é limitada ou de baixa certeza, isso está indicado no texto — porque uma página que só mostra o que favorece a própria prática não é uma página de evidência.
Veja como essas decisões se organizam no protocolo clínico completo, da avaliação à manutenção.
Dr. Marcelo Borille — CRO-RS 14520 — ORCID: 0009-0000-5422-207X
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