Por Que Uso IPS e.max Press em Lentes de Contato Dental
Atualizado em 2 de setembro de 2026
A Lógica Clínica Por Trás da Escolha
O IPS e.max Press (dissilicato de lítio, Ivoclar Vivadent) é o material principal para laminados cerâmicos no Protocolo Borille. Não é o único material que existe, nem é sempre o melhor para todos os casos — mas é o que oferece a melhor combinação de resistência, estética, previsibilidade e versatilidade para a maioria dos casos de lentes de contato dental. Esta página explica a lógica clínica por trás dessa escolha, compara com as alternativas e mostra quando outro material pode ser mais adequado.
O que é o IPS e.max Press
O IPS e.max Press é uma cerâmica vítrea reforçada por cristais de dissilicato de lítio (Li₂Si₂O₅), fabricada pela Ivoclar Vivadent. A peça é confeccionada pela técnica de injeção (lost-wax / cera perdida): o ceramista modela em cera, inclui em revestimento e injeta a cerâmica fundida sob pressão. Depois, a peça é finalizada com maquiagem e glaze (técnica stain) ou com aplicação de cerâmica de cobertura (técnica cut-back/layering).
O resultado é uma peça monolítica ou parcialmente estratificada, com resistência à flexão de 400 a 470 MPa, comportamento óptico semelhante ao esmalte dental e adesão previsível ao esmalte via condicionamento com ácido fluorídrico + silano. Entenda os termos técnicos relacionados aos materiais cerâmicos.
e.max Press vs e.max CAD: mesma cerâmica, processos diferentes
Ambos são dissilicato de lítio da Ivoclar, mas o processo de fabricação difere:
| Critério | e.max Press (injetada) | e.max CAD (fresada) |
| Processo | Cera perdida + injeção sob pressão | Fresagem em bloco pré-cristalizado + cristalização em forno |
| Resistência à flexão | 400 a 470 MPa | 360-400 MPa (após cristalização) |
| Adaptação marginal | Excelente — injeção preenche detalhes finos | Muito boa — limitada pelo diâmetro da fresa |
| Espessura mínima | 0,3 mm em laminados | Limitada pela fresagem (geralmente 0,4-0,5 mm) |
| Comportamento óptico | Maior variedade de ingots (HT, MT, LT, MO, HO, Impulse) | Blocos com menos variações de translucidez |
| Personalização | Ceramista controla anatomia, textura, camadas | Depende do software + acabamento manual |
| Tempo de produção | Mais longo (enceramento manual) | Mais rápido (digital + fresagem) |
| Custo laboratorial | Geralmente maior (trabalho manual) | Geralmente menor (mais automatizado) |
| Indicação principal | Laminados anteriores de alta estética | Coroas, overlays, onlays, casos mais automatizáveis |
Por que Press na maioria dos laminados: a injeção permite espessuras mais finas (importante em lentes), oferece mais opções de ingot para controle óptico, e a personalização pelo ceramista é superior. Em laminados anteriores, onde cada décimo de milímetro de espessura, cada nuance de translucidez e cada detalhe de textura importam, o Press entrega mais do que o CAD.
O CAD tem seu lugar: em coroas unitárias, overlays, onlays e situações onde a velocidade e a reprodutibilidade digital são mais importantes que a personalização artesanal. Já usei CAD em casos específicos e o resultado é clinicamente bom — mas para laminados anteriores de alta estética, o Press é a minha escolha. Veja a ciência por trás da escolha do e.max no protocolo Borille.
e.max Press vs feldspática: quando cada uma
A cerâmica feldspática (Eris, Creation, Noritake, etc.) é considerada por muitos ceramistas como a cerâmica mais estética que existe. E com razão: sua translucidez, opalescência e fluorescência são as mais próximas do esmalte dental natural. Então por que não usar feldspática em todos os casos?
| Critério | e.max Press | Feldspática |
| Resistência à flexão | 400 a 470 MPa | 90 a 120 MPa |
| Estética máxima | Excelente — especialmente com ingots HT e Impulse | Superior — a melhor cerâmica em opalescência e translucidez |
| Espessura mínima | 0,3 mm (com segurança) | 0,2-0,3 mm (possível, mas frágil) |
| Risco de fratura | Baixo | Maior — material mais frágil |
| Indicação ideal | Maioria dos laminados (versatilidade) | Facetas ultra-finas em esmalte íntegro, casos de máxima estética |
| Exigência do ceramista | Alta | Muito alta — requer ceramista extremamente experiente |
| Tolerância a erro | Maior — mais resistência compensa pequenas imperfeições | Menor — qualquer erro de manuseio pode fraturar |
| Condição ácida | HF 20s → padrão de condição bem definido | HF 60-90s → bom padrão |
| Previsibilidade clínica | Alta — grande volume de estudos de longo prazo | Alta em mãos experientes, menor com ceramistas menos treinados |
Quando uso feldspática
Nos casos de facetas ultra-finas (0,2-0,3 mm) sobre esmalte íntegro, onde a estética máxima é prioridade e o substrato claro permite alta translucidez. São tipicamente casos de no-prep ou preparo mínimo em pacientes sem bruxismo e com oclusão favorável.
Por que não uso feldspática como padrão
Porque a resistência mecânica de 90 a 120 MPa exige condições ideais: esmalte íntegro, espessura adequada, oclusão favorável, ausência de parafunção. Na prática clínica, nem todos os casos oferecem essas condições. O e.max Press com 400 a 470 MPa oferece uma margem de segurança que permite trabalhar com mais versatilidade — substratos menos ideais, preparos ligeiramente mais extensos, pacientes com oclusão menos favorável — sem sacrificar estética de forma significativa.
A diferença estética entre um e.max Press HT bem maquiado e uma feldspática de qualidade é perceptível por ceramistas em condições controladas, mas dificilmente por pacientes na boca. A diferença de resistência é de 4x. O trade-off é claro.
Por que não uso zircônia para laminados
A zircônia multicamada (tipo Katana UTML, Prettau Anterior) evoluiu muito e oferece estética aceitável em coroas. Mas para laminados anteriores, a minha posição é: não uso. As razões:
- Adesão: a zircônia não é condicionável com ácido fluorídrico. A adesão depende de primers específicos (MDP) e jateamento, que produzem adesão inferior à obtida com dissilicato de lítio condicionado + silano. Em laminados finos, onde a retenção mecânica é mínima, a qualidade da adesão é crítica.
- Comportamento óptico: mesmo a zircônia multicamada não reproduz a translucidez do esmalte natural como o dissilicato de lítio ou a feldspática. Em espessuras finas (0,3-0,5 mm), essa limitação é mais evidente.
- Espessura: laminados em zircônia geralmente exigem espessura mínima maior para estética aceitável, o que pode significar mais preparo.
- Evidência em laminados: a literatura científica sobre zircônia em laminados anteriores finos é muito mais limitada do que sobre dissilicato de lítio.
A zircônia é excelente para coroas posteriores, infraestruturas e situações de alta carga. Para laminados anteriores de alta estética, o dissilicato de lítio e a feldspática são superiores.
O sistema de ingots: a chave da versatilidade
Uma das maiores vantagens do e.max Press é o sistema de ingots. Cada ingot tem translucidez, opacidade e fluorescência diferentes, permitindo ao ceramista ajustar o comportamento óptico às condições específicas de cada caso:
| Ingot | Característica | Quando usar | Substrato ideal |
| HT | Alta translucidez | Substrato claro (ND1-ND2), espessura fina | Claro e uniforme |
| MT | Média translucidez | Substrato médio (ND2-ND3), versatilidade | Médio |
| LT | Baixa translucidez | Substrato escuro (ND3-ND4), mascaramento | Escuro ou manchado |
| MO | Média opacidade | Substrato muito escuro, núcleos metálicos | Muito escuro |
| HO | Alta opacidade | Núcleos metálicos escuros, coroas sobre implante | Metal ou muito escuro |
| Impulse | Opalescência aumentada | Máxima naturalidade em substrato favorável | Claro e uniforme |
Essa variedade de ingots é o que permite calcular, via IPS e.max Shade Navigation App, a combinação exata de ingot + cimento para cada substrato e cor desejada. É uma precisão que o CAD (com menos variações de bloco) e a feldspática (sem sistema de ingots) não oferecem com a mesma sistematização.
O que diz a evidência científica
O IPS e.max Press é uma das cerâmicas mais estudadas na literatura odontológica. Alguns dados relevantes:
- Sobrevida clínica: as revisões sistemáticas estimam sobrevida entre 89% e 97% em cerca de 10 anos para laminados cerâmicos, e a meta-análise mais recente aponta 96,81% para o dissilicato de lítio aos 10,4 anos (Klein e cols., PMID: 39523553). Estudos de até 15 anos mostram resultados consistentes.
- Fratura: a principal causa de falha é fratura (não descimentação), geralmente associada a bruxismo não controlado ou preparo insuficiente em esmalte.
- Adesão: o condicionamento com HF 5% por 20 segundos cria um padrão de microretentividade bem definido. Associado a silano e cimento resinoso, a força de adesão ao esmalte é consistentemente alta nos estudos.
- Estabilidade de cor: a cerâmica vitrificada não absorve pigmentos. A estabilidade de cor a longo prazo é documentada.
- Biocompatibilidade: cerâmica vítrea é material inerte. Não há relatos de reação adversa ao dissilicato de lítio na literatura.
Essa base científica é um dos motivos da escolha. Não é apenas preferência pessoal — é uma decisão amparada por evidência de longo prazo.
Uma correção importante sobre resistência. Os valores de catálogo divergem entre Press e CAD, e isso alimenta a ideia de que o prensado é mais resistente. Um estudo comparativo de resistência flexural biaxial sob norma ISO não encontrou diferença estatisticamente significativa entre as duas técnicas (p = 0,87), e os autores concluem que a técnica de fabricação não afeta a resistência das cerâmicas vítreas (Lin e cols., PMID: 22462639).
A preferência pelo Press em laminados anteriores se apoia em outros fatores: espessura mínima menor que o diâmetro das fresas, variedade de ingots e adaptação marginal. Uma revisão sistemática de 2025 encontrou adaptação marginal superior nas peças prensadas, registrando também que as fresadas tiveram melhor ajuste interno e maior eficiência de fluxo, e que a certeza da evidência é baixa a muito baixa (Sudharson e cols., PMID: 41024714).
E sobre a feldspática. A diferença de resistência é real — 90 a 120 MPa contra 400 a 470 do dissilicato. Mas a meta-análise com 29 estudos clínicos encontrou sobrevida equivalente entre os dois materiais aos 10,4 anos: 96,13% para feldspática e 96,81% para dissilicato. O que difere são as taxas de complicação técnica, de 41,48% para 6,1% (Klein e cols., PMID: 39523553). As duas duram praticamente o mesmo; a feldspática exige mais intervenções pelo caminho.
A árvore de decisão no Protocolo Borille
Na prática, a escolha do material segue esta lógica:
Caso padrão (maioria): laminados anteriores, 6-10 dentes, preparo em esmalte, substrato variado → IPS e.max Press (HT, MT ou LT conforme substrato).
Caso de máxima estética: no-prep ou preparo ultra-mínimo, esmalte íntegro, substrato claro, sem bruxismo, oclusão favorável, ceramista de referência disponível → feldspática pode ser considerada.
Caso digital/velocidade: quando o fluxo digital é prioritário ou o caso é mais automatizável (coroas, overlays) → e.max CAD.
Substrato muito escuro: núcleo metálico, escurecimento severo → e.max Press MO ou HO.
Posteriores de alta carga: coroas sobre implante, molares → zircônia (não para laminados anteriores).
O material não é dogma — é ferramenta. O e.max Press é a ferramenta mais versátil que tenho para laminados anteriores, por isso é a escolha principal. Mas a decisão final sempre considera o caso individual.
Para o dentista que está lendo
- Press acima do CAD para laminados anteriores de alta estética, por espessura mínima menor, mais opções de ingot e personalização — não por resistência, que é equivalente entre as duas técnicas
- Feldspática > Press em estética pura, mas com 1/4 da resistência — reservar para condições ideais
- Zircônia para laminados anteriores: adesão inferior + comportamento óptico limitado = não recomendo
- Sistema de ingots (HT/MT/LT/MO/HO/Impulse) + SNA app = controle óptico sistemático
- Condicionamento HF 5% por 20s + silano é o protocolo com melhor evidência para e.max
- Sobrevida entre 89% e 97% em cerca de 10 anos é a faixa que as revisões sistemáticas estimam para laminados cerâmicos
- O ceramista é tão importante quanto o material — Press medíocre em mãos medíocres = resultado medíocre
- Não há material perfeito para todos os casos — há o material certo para cada caso
Perguntas frequentes sobre o e.max
Oferece a melhor combinação de resistência (400 a 470 MPa), estética, adesão previsível, variedade de ingots e evidência científica de longo prazo. É o material mais versátil para laminados anteriores.
Ambos são dissilicato de lítio, mas o Press é injetado (mais personalizável, espessura mínima menor, mais ingots) e o CAD é fresado (mais rápido, mais automatizado). Para laminados de alta estética, o Press é superior.
Em condições controladas, sim — tem a opalescência e translucidez mais próximas do esmalte. Mas a resistência é 4x menor (90 a 120 MPa). É reservada para facetas ultra-finas em condições ideais.
Não é a escolha ideal. A adesão ao esmalte é inferior (sem condicionamento ácido), o comportamento óptico é limitado em espessuras finas e a evidência para laminados anteriores é escassa. Zircônia é melhor para coroas posteriores.
São pastilhas de cerâmica com diferentes níveis de translucidez e opacidade. HT (alta translucidez) para substratos claros, LT (baixa) para escuros, MO (média opacidade) para muito escuros. O ceramista escolhe o ingot ideal para cada caso.
Não sozinho. O material é a ferramenta — o resultado depende do planejamento, do ceramista, do protocolo de cimentação e dos cuidados do paciente. Material de qualidade com execução medíocre = resultado medíocre.
Conclusão
A escolha do material não é estetica vs resistência. É encontrar o equilíbrio entre ambos para cada caso. O IPS e.max Press oferece esse equilíbrio na maioria das situações clínicas: resistência suficiente para segurança, estética suficiente para naturalidade, versatilidade de ingots para controle óptico e evidência científica para previsibilidade. Quando o caso pede algo diferente, a decisão muda — mas a lógica permanece: escolher com base em critério clínico, não em preferência comercial.
Lente de Contato Dental, Dr. Marcelo Borille CRO-RS 14520. ORCID: 0009-0000-5422-207X. Rua 24 de Outubro, 1440/404 – Porto Alegre – RS. WhatsApp: (51) 999152255.
Referências
- Klein P, Spitznagel FA, Zembic A, e cols. Survival and Complication Rates of Feldspathic, Leucite-Reinforced, Lithium Disilicate and Zirconia Ceramic Laminate Veneers: A Systematic Review and Meta-Analysis. J Esthet Restor Dent. 2025;37(3):601-619. PMID: 39523553. doi:10.1111/jerd.13351
- Lin WS, Ercoli C, Feng C, Morton D. The effect of core material, veneering porcelain, and fabrication technique on the biaxial flexural strength and weibull analysis of selected dental ceramics. J Prosthodont. 2012;21(5):353-62. PMID: 22462639. doi:10.1111/j.1532-849X.2012.00845.x
- Sudharson NA, Bali P, Thomas PM, Kurian N, Varghese KG. Clinical Performance and Survival Outcomes of Milled Versus Pressed Lithium Disilicate Veneers: A Systematic Review. J Esthet Restor Dent. 2025;37(12):2590-2600. PMID: 41024714. doi:10.1111/jerd.70038
Os valores em MPa vêm de fichas técnicas de fabricante. Resistência medida em bancada não se traduz diretamente em longevidade clínica, como mostram os dados de sobrevida acima.
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