Por Que Uso IPS e.max Press em Lentes de Contato Dental
Atualizado em 21 de outubro de 2026
A Lógica Clínica Por Trás da Escolha
O IPS e.max Press (dissilicato de lítio, Ivoclar Vivadent) é o material principal para laminados cerâmicos no Protocolo Borille. Não é o único material que existe, nem é sempre o melhor para todos os casos, mas é o que oferece a melhor combinação de resistência, estética, previsibilidade e versatilidade para a maioria dos casos de lentes de contato dental. Esta página explica a lógica clínica por trás dessa escolha, compara com as alternativas e mostra quando outro material pode ser mais adequado.
O que é o IPS e.max Press
O IPS e.max Press é uma cerâmica vítrea reforçada por cristais de dissilicato de lítio (Li₂Si₂O₅), fabricada pela Ivoclar Vivadent. A peça é confeccionada pela técnica de injeção (lost-wax / cera perdida): o ceramista modela em cera, inclui em revestimento e injeta a cerâmica fundida sob pressão. Depois, a peça é finalizada com maquiagem e glaze (técnica stain) ou com aplicação de cerâmica de cobertura (técnica cut-back/layering).
O resultado é uma peça monolítica ou parcialmente estratificada, com resistência à flexão de 400 a 470 MPa, comportamento óptico semelhante ao esmalte dental e adesão previsível ao esmalte via condicionamento com ácido fluorídrico + silano. Entenda os termos técnicos relacionados aos materiais cerâmicos.

e.max Press vs e.max CAD: mesma cerâmica, processos diferentes
Ambos são dissilicato de lítio da Ivoclar, mas o processo de fabricação difere:
| Critério | e.max Press (injetada) | e.max CAD (fresada) |
| Processo | Cera perdida + injeção sob pressão | Fresagem em bloco pré-cristalizado + cristalização em forno |
| Resistência à flexão | 400 a 470 MPa | 360-400 MPa (após cristalização) |
| Adaptação marginal | Excelente: injeção preenche detalhes finos | Muito boa: limitada pelo diâmetro da fresa |
| Espessura mínima | 0,3 mm em laminados | Limitada pela fresagem (geralmente 0,4-0,5 mm) |
| Comportamento óptico | Maior variedade de ingots (HT, MT, LT, MO, HO, Impulse) | Blocos com menos variações de translucidez |
| Personalização | Ceramista controla anatomia, textura, camadas | Depende do software + acabamento manual |
| Tempo de produção | Mais longo (enceramento manual) | Mais rápido (digital + fresagem) |
| Custo laboratorial | Geralmente maior (trabalho manual) | Geralmente menor (mais automatizado) |
| Indicação principal | Laminados anteriores de alta estética | Coroas, overlays, onlays, casos mais automatizáveis |
Por que Press na maioria dos laminados: a injeção permite espessuras mais finas (importante em lentes), oferece mais opções de ingot para controle óptico, e a personalização pelo ceramista é superior. Em laminados anteriores, onde cada décimo de milímetro de espessura, cada nuance de translucidez e cada detalhe de textura importam, o Press entrega mais do que o CAD.
O CAD tem seu lugar: em coroas unitárias, overlays, onlays e situações onde a velocidade e a reprodutibilidade digital são mais importantes que a personalização artesanal. Já usei CAD em casos específicos e o resultado é clinicamente bom, mas para laminados anteriores de alta estética, o Press é a minha escolha. Veja a ciência por trás da escolha do e.max no protocolo Borille.
e.max Press vs feldspática: quando cada uma
A cerâmica feldspática (Eris, Creation, Noritake, etc.) é considerada por muitos ceramistas como a cerâmica mais estética que existe. E com razão: sua translucidez, opalescência e fluorescência são as mais próximas do esmalte dental natural. Então por que não usar feldspática em todos os casos?
| Critério | e.max Press | Feldspática |
| Resistência à flexão | 400 a 470 MPa | 90 a 120 MPa |
| Estética máxima | Excelente, especialmente com ingots HT e Impulse | Superior: a melhor cerâmica em opalescência e translucidez |
| Espessura mínima | 0,3 mm (com segurança) | 0,2-0,3 mm (possível, mas frágil) |
| Risco de fratura | Baixo | Maior: material mais frágil |
| Indicação ideal | Maioria dos laminados (versatilidade) | Facetas ultra-finas em esmalte íntegro, casos de máxima estética |
| Exigência do ceramista | Alta | Muito alta: requer ceramista extremamente experiente |
| Tolerância a erro | Maior: mais resistência compensa pequenas imperfeições | Menor: qualquer erro de manuseio pode fraturar |
| Condição ácida | HF 20s → padrão de condição bem definido | HF 60-90s → bom padrão |
| Previsibilidade clínica | Alta: grande volume de estudos de longo prazo | Alta em mãos experientes, menor com ceramistas menos treinados |
Quando uso feldspática
Nos casos de facetas ultra-finas (0,2-0,3 mm) sobre esmalte íntegro, onde a estética máxima é prioridade e o substrato claro permite alta translucidez. São tipicamente casos de no-prep ou preparo mínimo em pacientes sem bruxismo e com oclusão favorável.
Por que não uso feldspática como padrão
Porque a resistência mecânica de 90 a 120 MPa exige condições ideais: esmalte íntegro, espessura adequada, oclusão favorável, ausência de parafunção. Na prática clínica, nem todos os casos oferecem essas condições. O e.max Press com 400 a 470 MPa oferece uma margem de segurança que permite trabalhar com mais versatilidade (substratos menos ideais, preparos ligeiramente mais extensos, pacientes com oclusão menos favorável) sem sacrificar estética de forma significativa.
A diferença estética entre um e.max Press HT bem maquiado e uma feldspática de qualidade é perceptível por ceramistas em condições controladas, mas dificilmente por pacientes na boca. A diferença de resistência é de 4x. O trade-off é claro.
Por que não uso zircônia para laminados
A zircônia multicamada (tipo Katana UTML, Prettau Anterior) evoluiu muito e oferece estética aceitável em coroas. Mas para laminados anteriores, a minha posição é: não uso. As razões:
- Adesão: a zircônia não é condicionável com ácido fluorídrico. A adesão depende de primers específicos (MDP) e jateamento, que produzem adesão inferior à obtida com dissilicato de lítio condicionado + silano. Em laminados finos, onde a retenção mecânica é mínima, a qualidade da adesão é crítica.
- Comportamento óptico: mesmo a zircônia multicamada não reproduz a translucidez do esmalte natural como o dissilicato de lítio ou a feldspática. Em espessuras finas (0,3-0,5 mm), essa limitação é mais evidente.
- Espessura: laminados em zircônia geralmente exigem espessura mínima maior para estética aceitável, o que pode significar mais preparo.
- Evidência em laminados: a literatura científica sobre zircônia em laminados anteriores finos é muito mais limitada do que sobre dissilicato de lítio.
A zircônia é excelente para coroas posteriores, infraestruturas e situações de alta carga. Para laminados anteriores de alta estética, o dissilicato de lítio e a feldspática são superiores.
O sistema de ingots: a chave da versatilidade
Uma das maiores vantagens do e.max Press é o sistema de ingots. Cada ingot tem translucidez, opacidade e fluorescência diferentes, permitindo ao ceramista ajustar o comportamento óptico às condições específicas de cada caso:
| Ingot | Característica | Quando usar | Substrato ideal |
| HT | Alta translucidez | Substrato claro (ND1-ND2), espessura fina | Claro e uniforme |
| MT | Média translucidez | Substrato médio (ND2-ND3), versatilidade | Médio |
| LT | Baixa translucidez | Substrato escuro (ND3-ND4), mascaramento | Escuro ou manchado |
| MO | Média opacidade | Substrato muito escuro, núcleos metálicos | Muito escuro |
| HO | Alta opacidade | Núcleos metálicos escuros, coroas sobre implante | Metal ou muito escuro |
| Impulse | Opalescência aumentada | Máxima naturalidade em substrato favorável | Claro e uniforme |
Essa variedade de ingots é o que permite calcular, via IPS e.max Shade Navigation App, a combinação exata de ingot + cimento para cada substrato e cor desejada. É uma precisão que o CAD (com menos variações de bloco) e a feldspática (sem sistema de ingots) não oferecem com a mesma sistematização.
O que diz a evidência científica
O IPS e.max Press é uma das cerâmicas mais estudadas na literatura odontológica. Alguns dados relevantes:
- Sobrevida clínica: as revisões sistemáticas estimam sobrevida entre 89% e 97% em cerca de 10 anos para laminados cerâmicos, e a meta-análise mais recente aponta 96,81% para o dissilicato de lítio aos 10,4 anos (Klein e cols., PMID: 39523553). Estudos de até 15 anos mostram resultados consistentes.
- Fratura: a principal causa de falha é fratura (não descimentação), geralmente associada a bruxismo não controlado ou preparo insuficiente em esmalte.
- Adesão: o condicionamento com HF 5% por 20 segundos cria um padrão de microretentividade bem definido. Associado a silano e cimento resinoso, a força de adesão ao esmalte é consistentemente alta nos estudos.
- Estabilidade de cor: a cerâmica vitrificada não absorve pigmentos. A estabilidade de cor a longo prazo é documentada.
- Biocompatibilidade: cerâmica vítrea é material inerte. Não há relatos de reação adversa ao dissilicato de lítio na literatura.
Essa base científica é um dos motivos da escolha. Não é apenas preferência pessoal: é uma decisão amparada por evidência de longo prazo.
Uma correção importante sobre resistência. Os valores de catálogo divergem entre Press e CAD, e isso alimenta a ideia de que o prensado é mais resistente. Um estudo comparativo de resistência flexural biaxial sob norma ISO não encontrou diferença estatisticamente significativa entre as duas técnicas (p = 0,87), e os autores concluem que a técnica de fabricação não afeta a resistência das cerâmicas vítreas (Lin e cols., PMID: 22462639).
A preferência pelo Press em laminados anteriores se apoia em outros fatores: espessura mínima menor que o diâmetro das fresas, variedade de ingots e adaptação marginal. Uma revisão sistemática de 2025 encontrou adaptação marginal superior nas peças prensadas, registrando também que as fresadas tiveram melhor ajuste interno e maior eficiência de fluxo, e que a certeza da evidência é baixa a muito baixa (Sudharson e cols., PMID: 41024714).
E sobre a feldspática. A diferença de resistência é real: 90 a 120 MPa contra 400 a 470 do dissilicato. Mas a meta-análise com 29 estudos clínicos encontrou sobrevida equivalente entre os dois materiais aos 10,4 anos: 96,13% para feldspática e 96,81% para dissilicato. O que difere são as taxas de complicação técnica, de 41,48% para 6,1% (Klein e cols., PMID: 39523553). As duas duram praticamente o mesmo; a feldspática exige mais intervenções pelo caminho.
A árvore de decisão no Protocolo Borille
Na prática, a escolha do material segue esta lógica:
Caso padrão (maioria): laminados anteriores, 6-10 dentes, preparo em esmalte, substrato variado → IPS e.max Press (HT, MT ou LT conforme substrato).
Caso de máxima estética: no-prep ou preparo ultra-mínimo, esmalte íntegro, substrato claro, sem bruxismo, oclusão favorável, ceramista de referência disponível → feldspática pode ser considerada.
Caso digital/velocidade: quando o fluxo digital é prioritário ou o caso é mais automatizável (coroas, overlays) → e.max CAD.
Substrato muito escuro: núcleo metálico, escurecimento severo → e.max Press MO ou HO.
Posteriores de alta carga: coroas sobre implante, molares → zircônia (não para laminados anteriores).
O material não é dogma: é ferramenta. O e.max Press é a ferramenta mais versátil que tenho para laminados anteriores, por isso é a escolha principal. Mas a decisão final sempre considera o caso individual.
Para o dentista que está lendo
- Press acima do CAD para laminados anteriores de alta estética, por espessura mínima menor, mais opções de ingot e personalização, não por resistência, que é equivalente entre as duas técnicas
- Feldspática > Press em estética pura, mas com 1/4 da resistência: reservar para condições ideais
- Zircônia para laminados anteriores: adesão inferior + comportamento óptico limitado = não recomendo
- Sistema de ingots (HT/MT/LT/MO/HO/Impulse) + SNA app = controle óptico sistemático
- Condicionamento HF 5% por 20s + silano é o protocolo com melhor evidência para e.max
- Sobrevida entre 89% e 97% em cerca de 10 anos é a faixa que as revisões sistemáticas estimam para laminados cerâmicos
- O ceramista é tão importante quanto o material. Press medíocre em mãos medíocres = resultado medíocre
- Não há material perfeito para todos os casos: há o material certo para cada caso
Perguntas frequentes sobre o e.max
Oferece a melhor combinação de resistência (400 a 470 MPa), estética, adesão previsível, variedade de ingots e evidência científica de longo prazo. É o material mais versátil para laminados anteriores.
Ambos são dissilicato de lítio, mas o Press é injetado (mais personalizável, espessura mínima menor, mais ingots) e o CAD é fresado (mais rápido, mais automatizado). Para laminados de alta estética, o Press é superior.
Em condições controladas, sim: tem a opalescência e translucidez mais próximas do esmalte. Mas a resistência é 4x menor (90 a 120 MPa). É reservada para facetas ultra-finas em condições ideais.
Não é a escolha ideal. A adesão ao esmalte é inferior (sem condicionamento ácido), o comportamento óptico é limitado em espessuras finas e a evidência para laminados anteriores é escassa. Zircônia é melhor para coroas posteriores.
São pastilhas de cerâmica com diferentes níveis de translucidez e opacidade. HT (alta translucidez) para substratos claros, LT (baixa) para escuros, MO (média opacidade) para muito escuros. O ceramista escolhe o ingot ideal para cada caso.
Não sozinho. O material é a ferramenta: o resultado depende do planejamento, do ceramista, do protocolo de cimentação e dos cuidados do paciente. Material de qualidade com execução medíocre = resultado medíocre.
Conclusão
A escolha do material não é estetica vs resistência. É encontrar o equilíbrio entre ambos para cada caso. O IPS e.max Press oferece esse equilíbrio na maioria das situações clínicas: resistência suficiente para segurança, estética suficiente para naturalidade, versatilidade de ingots para controle óptico e evidência científica para previsibilidade. Quando o caso pede algo diferente, a decisão muda, mas a lógica permanece: escolher com base em critério clínico, não em preferência comercial.
Lente de Contato Dental, Dr. Marcelo Borille CRO-RS 14520. ORCID: 0009-0000-5422-207X. Rua 24 de Outubro, 1440/404, Porto Alegre, RS. WhatsApp: (51) 999152255.
Referências
- Klein P, Spitznagel FA, Zembic A, e cols. Survival and Complication Rates of Feldspathic, Leucite-Reinforced, Lithium Disilicate and Zirconia Ceramic Laminate Veneers: A Systematic Review and Meta-Analysis. J Esthet Restor Dent. 2025;37(3):601-619. PMID: 39523553. doi:10.1111/jerd.13351
- Lin WS, Ercoli C, Feng C, Morton D. The effect of core material, veneering porcelain, and fabrication technique on the biaxial flexural strength and weibull analysis of selected dental ceramics. J Prosthodont. 2012;21(5):353-62. PMID: 22462639. doi:10.1111/j.1532-849X.2012.00845.x
- Sudharson NA, Bali P, Thomas PM, Kurian N, Varghese KG. Clinical Performance and Survival Outcomes of Milled Versus Pressed Lithium Disilicate Veneers: A Systematic Review. J Esthet Restor Dent. 2025;37(12):2590-2600. PMID: 41024714. doi:10.1111/jerd.70038
Os valores em MPa vêm de fichas técnicas de fabricante. Resistência medida em bancada não se traduz diretamente em longevidade clínica, como mostram os dados de sobrevida acima.
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