O Guia Completo de Cada Material, Sua Composição e Evidência
Nem toda “porcelana” é igual. Quando o dentista diz “lente de porcelana”, pode estar falando de materiais completamente diferentes em composição, resistência, translucidêz e evidência clínica. Esta página compara todos os materiais usados em laminados cerâmicos: o que são, do que são feitos e o que a ciência diz sobre cada um.
Tabela comparativa: todos os materiais em um quadro
| Material | Tipo | Resist. Flexural | Translucidêz | Adesão (HF) | Evidência 10a | Esp. mín. | Uso em laminados | No Prot. Borille |
| e.max Press | Dissilicato de lítio (injetado) | 400-470 MPa | Alta (HT) | HF 5%/20s + silano | 96,8% sobrevida | 0,3 mm | PADRÃO OURO | ✅ Padrão |
| e.max CAD | Dissilicato de lítio (fresado) | 360-400 MPa | Alta (HT) | HF 5%/20s + silano | ~92-93% | 0,4 mm | Adequado (não ideal) | Coroas |
| Feldspática | Vidro silícico (estratificada) | 90-120 MPa | Máxima | HF 9,5%/60-90s + silano | 96,1% | 0,1 mm | Fragmentos, ultra-finas | ✅ Fragmentos |
| Zircônia | Policristalina (óxido) | 900-1200 MPa | Baixa | Não condiciona com HF | 100% (curto prazo) | 0,5 mm | NÃO indicada | ❌ Não usa |
| Resina laboratorial | Polímero com carga | 150-200 MPa | Baixa-Média | Jateamento + adesivo | Sem dados | 0,3 mm | NÃO é porcelana | ❌ Não usa |
| Genéricos LDS | Dissilicato de lítio (cópias) | 330-400 MPa | Variável | HF 5%/20s + silano | Sem dados longo prazo | 0,3-0,4 mm | Funciona, sem evidência | ❌ Não usa |
Consulte o glossário com definições dos materiais cerâmicos.
1. IPS e.max Press (Ivoclar Vivadent) — o padrão ouro
Composição química
- SiO₂ (dióxido de silício): 57-80% — base da matriz vítrea
- Li₂O (óxido de lítio): 11-19% — formador dos cristais de dissilicato
- K₂O (óxido de potássio): 0-13% — modifica viscosidade e expansão térmica
- P₂O₅ (pentóxido de fósforo): 0-11% — agente nucleante (controla cristalização)
- ZnO, Al₂O₃, MgO: 0-8% cada — modificadores de propriedades ópticas e térmicas
- Óxidos corantes: 0-8% — controlam cor e fluorescência
Microestrutura
~70% em volume de cristais de dissilicato de lítio (Li₂Si₂O₅) em forma de agulha (3-6 μm), orientados aleatoriamente e entrelaçados. Essa estrutura é o que dá resistência: trincas defletem ao encontrar cristais em múltiplas direções. Matriz vítrea residual (~30%) responsável pela translucidêz. Índice de refração do cristal (1,55) próximo ao da matriz (1,50) = translucidêz preservada mesmo com 70% de cristais.
Por que é o padrão ouro para laminados
- Resistência: 400-470 MPa — suficiente para laminados anteriores e posteriores (vonlays ≥1,5 mm).
- Translucidêz: sistema de ingots (HT, MT, LT, MO, HO, Impulse, Multi) permite ajuste preciso.
- Adesão previsível: condicionamento com HF 5%/20s + silano = protocolo padronizado e reprodutível.
- Evidência: meta-análise de 29 estudos: 96,81% de sobrevida em 10,4 anos. Material com mais dados clínicos de longo prazo.
- Press > CAD para laminados: injeção gera microestrutura mais homogênea, adaptação marginal superior, espessuras mínimas menores.
📚 Klein P, et al. J Esthet Restor Dent. 2024. PMID: 39523553. Sudharson S, et al. J Esthet Restor Dent. 2025. DOI: 10.1111/jerd.70038.
2. IPS e.max CAD (Ivoclar Vivadent) — o fresado
Mesma composição química do Press (SiO₂-Li₂O). Mesmos 70% de cristais Li₂Si₂O₅ após cristalização. A diferença está no processamento: o bloco é fresado em estado parcialmente cristalizado (metassilicato de lítio, Li₂SiO₃, azul) e depois cristalizado em forno a ~850°C.
Diferenças clínicas vs Press
- Resistência levemente menor: 360-400 MPa (vs 400-470 do Press).
- Adaptação marginal: revisão sistemática mostrou Press com adaptação superior.
- Espessura mínima maior: limitada pelo diâmetro da fresa (~0,4 mm vs 0,3 mm do Press).
- Personalização: peça monolítica fresada de bloco. Menos opções de estratificação artesanal que o Press.
- Vantagem: rapidez (CAD/CAM same-day). Útil para coroas posteriores.
No Protocolo Borille: e.max CAD reservado para coroas e peças posteriores. Para laminados anteriores, Press é superior em adaptação, personalização e espessura mínima.
3. Porcelana feldspática (VM, Noritake, Creation, etc.) — a mais artesanal
Composição
Base de vidro silícico (SiO₂ ~60-70%) com feldspato (KAlSi₃O₈ e NaAlSi₃O₈) como fundente. Cristais de leucita em baixa concentração (~10-20%). Altamente vítrea = máxima translucidêz e opalescência, mas baixa resistência (90-120 MPa).
Comportamento óptico
A feldspática é a porcelana com comportamento de luz mais próximo do esmalte natural: translucidêz, opalescência, fluorescência. Ideal para peças ultra-finas e fragmentos onde a integração óptica com o dente natural é crítica. Pode ser construída em espessuras de 0,1 mm sobre refratário.
Limitações
- Resistência baixa: 90-120 MPa. Não suporta carga oclusal significativa.
- Condicionamento diferente: HF 9,5% por 60-90s (não 5%/20s como e.max!).
- Exige ceramista excepcional: estratificação manual camada por camada sobre refratário.
No Protocolo Borille: feldspática usada quase que exclusivamente para fragmentos cerâmicos (pendentes de contato) sobre refratário.
📚 Klein P, et al. 2024: sobrevida feldspática 96,13% em 10,4 anos (comparável ao LDS, mas com mais complicações técnicas: 41,48% vs 6,1%).
4. Zircônia (Y-TZP) — por que NÃO usamos em laminados
Composição
ZrO₂ (dióxido de zircônio) estabilizado com ítria (Y₂O₃, 3-5%). Material policristalino — não tem fase vítrea. 100% cristais. Resistência extrema: 900-1200 MPa.
Por que não funciona para laminados
- Não condiciona com HF: sem fase vítrea, o ácido fluoridrico não cria microrretenções. Adesão dependente de primers específicos (MDP) + jateamento — menos previsível que HF+silano.
- Translucidêz insuficiente: mesmo zircônias “translúcidas” (5Y-TZP) não alcançam a translucidêz do e.max HT ou feldspática. Resultado opaco, sem profundidade óptica.
- Sem evidência longo prazo em laminados: meta-análise de 2024 encontrou 100% de sobrevida em zircônia, mas com acompanhamento de apenas 2,6 anos. Sem dados de longo prazo.
- Excessivamente resistente: 900-1200 MPa é desnecessário para laminado de 0,3-0,5 mm. O material é projetado para estruturas de prótese, não para lâminas estéticas.
Zircônia é excelente para infraestruturas de próteses fixas e coroas posteriores. Para laminados estéticos, é o material errado.
5. Resina laboratorial (Shofu, Brava Block, PMMA, etc.) — NÃO é porcelana
O alerta mais importante desta página: resina laboratorial NÃO é lente de contato dental de porcelana.
Resinas laboratoriais são polímeros com carga inorgânica (sílica, zircônia, vidro) processados em laboratório (fresados ou prensados). Custam fração do e.max (R$ 50-150/peça para o lab vs R$ 400-800 do e.max). E é exatamente por isso que são usadas em lentes “baratas”.
Problemas
- Mancham: a matriz polimérica absorve pigmentos ao longo dos anos. Café, vinho, açaí — tudo mancha.
- Perdem brilho: a superfície polimérica desgasta e opacifica com o tempo.
- Resistência inferior: 150-200 MPa (vs 400-470 do e.max Press).
- Sem evidência: nenhum estudo de longo prazo publicado em periódicos indexados para uso como laminados estéticos.
- Vendida como “lente”: na foto do Instagram parece idêntica à porcelana. Em 2-3 anos, a diferença aparece.
Se o profissional não diz o nome comercial do material, a hipótese de ser resina é real.
6. Genéricos de dissilicato de lítio (Rosetta, Amber, Upcera, HaHaSmile, etc.)
Vários fabricantes (principalmente asiáticos) produzem blocos e ingots de dissilicato de lítio que imitam a composição do e.max. Estudos laboratoriais comparando Rosetta SM e e.max CAD não encontraram diferenças significativas em resistência flexural nem em estrutura cristalina. Ou seja: em laboratório, são semelhantes.
O problema
- Sem dados clínicos de longo prazo: os estudos são in vitro (laboratório). Não há ensaios clínicos publicados com 5-10 anos de acompanhamento desses materiais em laminados.
- Variação entre lotes: fabricantes menores podem ter menos controle de qualidade entre lotes de produção.
- Condicionamento pode variar: embora a composição seja similar, micro-diferenças na fase vítrea podem afetar a resposta ao HF.
- Sem sistema de ingots equivalente: o e.max Press oferece HT, MT, LT, MO, HO, Impulse, Multi — um espectro que genéricos não replicam.
📚 Kang SH, et al. Restor Dent Endod. 2013;38(3):134-237. PMID: 24010079. — Rosetta SM vs e.max CAD: sem diferença em resistência flexural e estrutura cristalina (in vitro).
📚 Corado TL, et al. Int J Biomater. 2022;2022:5896511. PMC: 8828337. — e.max CAD e Rosetta SM com resistência superior a cerâmicas ZLS (Celtra Duo, Suprinity).
No Protocolo Borille: não usamos genéricos. Não porque sejam necessariamente ruins em laboratório, mas porque não têm a evidência clínica de longo prazo que o e.max Press tem. Em procedimento irreversível, usamos o material com mais dados.
Por que e.max Press e não qualquer outro
A resposta é simples: evidência. O e.max Press é o material com o maior volume de dados clínicos publicados para laminados cerâmicos. 96,81% de sobrevida em 10,4 anos em meta-análise de 29 estudos. Nenhum outro material tem esse histórico. Quando você cola porcelana nos seus dentes para o resto da vida, usar o material com mais evidência não é perfeccionismo — é o mínimo. Entenda a base científica por trás da seleção de materiais
FAQ dos materiais para lente dental
Conclusão
Quando alguém diz “lente de porcelana”, pergunte: qual porcelana? A resposta revela o nível do tratamento. e.max Press (Ivoclar) é o padrão ouro com mais evidência. e.max CAD é adequado para coroas. Feldspática é excepcional para fragmentos. Zircônia não é para laminados. Resina laboratorial não é porcelana. Genéricos podem funcionar, mas sem garantia de longo prazo. A transparência sobre o material é o primeiro indicador de qualidade.
Dr. Marcelo Borille — CRO-RS 14520 — ORCID: 0009-0000-5422-207X. Rua 24 de Outubro, 1440/404 – Porto Alegre – RS. WhatsApp: (51) 999152255.
IPS e.max Press (Ivoclar Vivadent). É o material com mais evidência clínica de longo prazo (96,81% sobrevida em 10,4 anos), resistência adequada (400-470 MPa), translucidêz natural e sistema de ingots versátil.
Mesma composição química, mesmos 70% de cristais. Mas processamento diferente: Press é injetado (adaptação marginal superior, espessura mínima menor). CAD é fresado (mais rápido, mas menos personalizável para laminados estéticos).
Zircônia não condiciona com HF (adesão menos previsível), tem translucidêz insuficiente para estética anterior e não tem evidência de longo prazo em laminados. É material para infraestruturas e coroas, não para lâminas estéticas.
Pergunte o nome comercial exato ao seu dentista. Se a resposta for específica (e.max Press, por exemplo), é porcelana. Se for vaga (“pro celana importada”, “cerâmica de última geração”), desconfie.
Em laboratório, alguns (como Rosetta SM) mostraram propriedades semelhantes ao e.max. Mas não têm estudos clínicos de longo prazo publicados. Para procedimento irreversível, preferimos o material com mais evidência.
