A Ciência Por Trás de Cada Decisão do Protocolo Borille para Lentes de Contato Dental

Nenhuma decisão do Protocolo Borille é preferência pessoal. Cada uma tem base científica. Esta página documenta as 12 decisões clínicas mais importantes do protocolo, a evidência que sustenta cada uma e a alternativa que foi descartada (e por quê). Não é artigo acadêmico — é transparência. O paciente que lê sabe por que cada etapa existe. O profissional que lê sabe que não é achismo.

Dr. Marcelo Borille — CRO-RS 14520 — ORCID: 0009-0000-5422-207X

Resumo: 12 decisões com base científica

#DecisãoBase científica (resumo)Alternativa descartada
1e.max Press (não CAD)Microestrutura mais homogênea, condicionamento mais previsível, mais ingotse.max CAD (fresado)
2HT como ingot padrãoMáxima translucidêz = máxima naturalidade em substratos clarosTrocar ingot por dente (LT, MO)
3Ajuste por espessura e cimentoMantém uniformidade óptica; espessura isola substrato sem mudar sistemaTrocar ingot por dente
4Etch-and-rinse 3 passosMaior força de adesão e longevidade vs sistemas simplificadosUniversal/all-in-one
5IDS sistemáticoForça de adesão superior ao DDS; protege polpa; reduz sensibilidadeSelamento no dia da cimentação (DDS)
6Não clarear substratoRegressão do clareamento altera leitura óptica a longo prazoClarear substrato para resultado mais claro no dia 1
7Mock-up físico obrigatórioPrevisão 3D real; testa fonética/volume; alinha expectativaSó DSD/digital (2D)
8Moldagem física (silicone)Fio retrator captura margem subgengival; scanner não afasta gengivaScanner intraoral exclusivo
9Allcem Veneer APSFluorescência intensa = detecção de excessos com UV; 7 coresCimentos sem fluorescência adequada
10Dupla verificação UVExcessos subgengivais invisíveis sob luz branca causam inflamação crônicaRemoção visual (só luz branca)
11Gengivoplastia com bisturiPrecisão de corte; sem dano térmico; cicatrização previsívelLaser de diodo/Nd:YAG
12Fotopolimerização 60s/faceGrau de conversão proporcional ao tempo; subpolimerização compromete adesão20-40s/face (atalho)

Detalhamento de cada decisão

Decisão 1: e.max Press em vez de e.max CAD

O que faço: IPS e.max Press (Ivoclar) como material padrão para todos os laminados anteriores. CAD reservado para coroas e peças posteriores.

📚 Evidência: O e.max Press é totalmente cristalizado durante a injeção, gerando microestrutura com fase vítrea mais homogênea. Isso produz condicionamento com HF mais uniforme e previsível, melhor acoplamento com silano e, consequentemente, adesão mais consistente. O sistema de ingots do Press (HT, MT, LT, MO, HO, Impulse) oferece mais opções de translucidêz que os blocos CAD. A técnica de injeçã permite espessuras mínimas menores que o diâmetro da fresa. Resistência flexão: 400-470 MPa (Press) vs 360-400 MPa (CAD após cristalização). Revisões sistemáticas de sobrevida de laminados em dissilicato de lítio consistentemente reportam 95-97% em 10 anos.

Alternativa descartada: e.max CAD (fresado): cristalização em forno pós-fresagem gera microestrutura menos homogênea. Condicionamento mais variável. Personalização inferior (peça monolítica de bloco). Adequado para coroas, não ideal para laminados de alta estética.

Decisão 2: Ingot HT como padrão

O que faço: Ingot HT (High Translucency) para todas as peças do caso. Não troco ingot por dente.

📚 Evidência: A translucidêz do esmalte natural humano é mais próxima dos valores HT do que LT. Laminados HT permitem maior passagem de luz, criam efeito camaleão (adaptação ao entorno) e produzem resultado mais natural em substratos claros (A1-A2). Estudos de cor demonstram que a translucidêz do laminado influencia significativamente a percepção de naturalidade. Manter o mesmo ingot em todas as peças preserva uniformidade óptica do conjunto — variações entre HT/LT/MO no mesmo caso criam inconsistência de comportamento de luz entre dentes adjacentes.

Alternativa descartada: Trocar ingot por dente (LT no dente escuro, HT nos demais): quebra uniformidade óptica. Cada ingot tem comportamento de luz diferente. Mesmo com stain compensatório, a diferença é perceptível em iluminações variáveis.

Decisão 3: Ajuste por espessura e cimento, não por ingot

O que faço: Quando um dente tem substrato mais escuro, aumento a espessura da peça nesse dente e/ou uso cimento com cor (A1, OW). O ingot se mantém HT.

📚 Evidência: Estudos de cor em laminados demonstram que a espessura da cerâmica é o fator mais controlável para modular a influência do substrato: peças de 0,3 mm não mascaram substratos escuros; a partir de 0,5-0,7 mm o mascaramento é efetivo. A cor do cimento é o segundo fator: cimentos crómaticos e opacos podem alterar a leitura final em até 2 unidades CIELAB. A combinação espessura + cimento é suficiente para compensar diferenças de substrato sem trocar o ingot.

Alternativa descartada: Usar ingots diferentes (LT, MO) no mesmo caso: resolve mascaramento pontual mas cria inconsistência óptica. O dente com MO fica “apagado” ao lado do dente com HT.

Decisão 4: Etch-and-rinse 3 passos sempre

O que faço: Condicionamento ácido separado (H₃PO₄ 37%) + primer + bond (adesivo). Nunca simplifico para 2 passos ou universal em laminados.

📚 Evidência: Meta-análises de sistemas adesivos consistentemente demonstram que o etch-and-rinse de 3 passos produz as maiores forças de adesão ao esmalte e as mais estáveis ao longo do tempo. Adesivos simplificados (all-in-one, universais) têm camada mais hidrofilílica que funciona como membrana semipermeável, permitindo passagem de água que degrada a interface ao longo dos anos. Em procedimento irreversível de alto custo, usar o sistema com melhor evidência de longevidade é o mínimo.

Alternativa descartada: Adesivos universais/all-in-one: mais rápidos, mais simples, mas com evidência de longevidade inferior em dentina. Aceitável em restaurações diretas; não justificável em laminados.

Decisão 5: IDS sistemático quando há dentina

O que faço: Immediate Dentin Sealing aplicado imediatamente após o preparo, antes da moldagem, sempre que há dentina exposta.

📚 Evidência: Estudos comparando IDS (selamento imediato) vs DDS (selamento no dia da cimentação) demonstram consist entemente que o IDS produz forças de adesão significativamente superiores. A dentina recém-cortada está limpa, húmida e com smear layer fresca — condição ideal para infiltração do adesivo. Dentina exposta ao cimento provisório por semanas sofre contaminação, desidratação parcial e degradação da smear layer. IDS também sela túbulos, reduzindo sensibilidade pós-operatória e protegendo a polpa durante a fase de provisório.

Alternativa descartada: DDS (selar dentina só no dia da cimentação): mais simples logisticamente, mas com adesão inferior e maior risco de sensibilidade. Não justificável quando a evidência é tão clara.

Decisão 6: Não clarear o substrato dos dentes que receberão lentes

O que faço: Clareamento apenas de vizinhos e arcada oposta. Ingot e cimento calculados para o substrato natural (A2 na maioria).

📚 Evidência: O clareamento dental é parcialmente reversível: a cor regride ao longo dos anos (variação de 1-3 tons na escala VITA em 2-5 anos). Se o ingot e o cimento foram calculados para um substrato clareado (ex: A1) e esse substrato regride para A2-A3, a leitura óptica da lente muda — pode parecer mais escura ou acinzentada. Calcular para o substrato natural garante estabilidade de cor ao longo de décadas: o substrato não vai mudar, então a leitura óptica também não.

Alternativa descartada: Clarear substrato para resultado mais claro no dia 1: funciona no curto prazo, mas cria dependência de manutenção de clareamento. Se o paciente para de clarear, a cor muda.

Decisão 7: Mock-up físico obrigatório antes de preparar

O que faço: Enceramento diagnóstico + transferência com bisacrílica na boca. Paciente aprova forma antes de qualquer desgaste. DSD complementar quando indicado, mas nunca substitui o físico.

📚 Evidência: O mock-up físico permite avaliação tridimensional real: volume, perfil labial, fonética, simetria, proporção comprimento/largura — nenhum software 2D reproduz. Estudos sobre satisfação do paciente em estética dental mostram que o alinhamento de expectativas pré-tratamento é o principal preditor de satisfação pós-tratamento. Além disso, a muralha de silicone do mock-up é a ferramenta para o provisório — sem mock-up, provisório é improviso.

Alternativa descartada: Só DSD/digital: útil para discussão de expectativas em tela, mas 2D não avalia volume, fonética nem perfil. Não substitui o físico.

Decisão 8: Moldagem física com silicone de adição + fio retrator

O que faço: Silicone de adição com técnica de reembasamento. Fio retrator para expor margem. Scanner como complemento, não substituto.

📚 Evidência: O fio retrator desloca mecanicamente o tecido gengival, expondo a margem do preparo — o scanner intraoral não tem capacidade de afastar gengiva, capturando apenas o que “vê”. Em laminados com margem cervical justa (subgengival ou intrassulcular), essa limitação é clínicamente relevante. O silicone de adição tem precisão dimensional comprovada e estabilidade superior a 24h, permitindo vazamento em gesso sem distorção. Estudos comparando precisão de moldagem física vs digital mostram resultados equivalentes em margens supragengivais, mas vantagem do físico em margens subgengivais.

Alternativa descartada: Scanner exclusivo: não afasta gengiva. Laboratórios frequentemente pedem moldagem física junto para checar adaptação — o digital não substituiu, duplicou.

Decisão 9: Allcem Veneer APS como cimento de primeira escolha

O que faço: Cimento resinoso fotopolimerizável com 7 opções de cor e fluorescência intensa projetada para controle UV.

📚 Evidência: A fluorescência do Allcem APS é significativamente superior à da maioria dos cimentos do mercado sob UV (~405 nm). Isso permite identificação e remoção de excessos subgengivais e interproximais que são invisíveis sob luz branca. Estudos demonstram que excessos de cimento são a causa mais comum de inflamação gengival pós-cimentação de laminados. A variedade de 7 cores permite ajuste fino da cor final (Trans, A1, A2, OW, etc.) conforme substrato individual.

Alternativa descartada: Cimentos sem fluorescência adequada: funcionam como adesivos, mas não permitem detecção UV de excessos. Excessos residuais causam inflamação crônica silenciosa.

Decisão 10: Dupla verificação UV (após tack cure + após polimerização)

O que faço: Modo UV (~405 nm) do fotopolimerizador ativado em 2 momentos: após tack cure (remoção de excessos finos) e após polimerização completa (verificação final).

📚 Evidência: Excessos de cimento resinoso em laminados são a causa mais comum de inflamação gengival pós-cimentação. Sob luz branca, esses excessos são virtualmente invisíveis (mesma cor da gengiva/dente). Sob UV, cimentos com fluorescência adequada (como Allcem APS) brilham intensamente, permitindo detecção e remoção precisa. A dupla verificação (2 momentos) reduz virtualmente a zero os excessos residuais. Também útil em retornos para monitorar margens e detectar excessos tardios.

Alternativa descartada: Remoção visual sob luz branca apenas: deixa excessos subgengivais e interproximais que causam inflamação em semanas/meses.

Decisão 11: Gengivoplastia com bisturi convencional (não laser)

O que faço: Bisturi convencional (lâmina 15c) para gengivoplastia. Cinzel para osteotomia quando indicada.

📚 Evidência: O bisturi convencional oferece precisão táctil superior, corte limpo sem dano térmico lateral e cicatrização previsível por primeira intenção. Lasers de diodo e Nd:YAG causam dano térmico ao tecido adjacente (zona de necrose coagulativa), podem atrasar cicatrização e gerar contorno gengival menos previsível. O laser Er:YAG é diferente (ablativo, sem dano térmico significativo), mas para gengivoplastia estética o bisturi oferece controle equivalente ou superior com custo menor. Para laminados, onde a precisão da margem gengival é crítica, a previsibilidade do bisturi é prioridade.

Alternativa descartada: Laser de diodo: popular no marketing (“sem sangue, sem dor”), mas com dano térmico que pode comprometer a previsibilidade da margem gengival.

Decisão 12: Fotopolimerização 60 segundos por face

O que faço: Mínimo de 60 segundos por face (vestibular, palatina, incisal se aplicável) com fotopolimerizador de potência adequada (>1.000 mW/cm²).

📚 Evidência: O grau de conversão dos monômeros é diretamente proporcional à energia total recebida (potência × tempo). Subpolimerização do cimento compromete propriedades mecânicas, aumenta sorção de água, libera monômeros residuais (potencial irritação pulpar) e reduz força de adesão. Estudos demonstram que cimentos fotopolimerizáveis sob laminados cerâmicos (que atenuam a luz) requerem tempos maiores que os recomendados para exposição direta. 60s/face é o mínimo para garantir conversão adequada através de cerâmica de 0,3-0,5 mm.

Alternativa descartada: 20-40s/face: atalho comum que economiza minutos e compromete anos de longevidade. A diferença entre 20s e 60s é 40 segundos. A diferença em durabilidade pode ser anos.

O princípio que une todas as decisões

Se você observar as 12 decisões, todas seguem o mesmo padrão:

  • Preservar esmalte: decisões 2, 3, 4, 5, 7, 8 — todas convergem para manter o máximo de esmalte e otimizar adesão ao substrato remanescente.
  • Previsibilidade a longo prazo: decisões 1, 4, 5, 6, 12 — escolher o que funciona melhor em 10 anos, não o que parece melhor no dia 1.
  • Controle total de cada variável: decisões 2, 3, 9, 10, 11 — não aceitar “provavélmente funciona” quando “comprovadamente funciona” está disponível.
  • Transparência: decisões 6, 7 — alinhar expectativa real, não vender resultado otimizado que degrada.

Cada etapa do protocolo existe para prevenir uma complicação específica. Não é perfeccionismo. É o mínimo que um tratamento irreversível exige.

Por que tornar isso público

A maioria dos profissionais mantém protocolo como “segredo”. Eu faço o oposto: publico cada decisão e a evidência que a sustenta. Por quê? Porque quem esconde protocolo pode estar escondendo a ausência dele. E porque o paciente que entende por que cada etapa existe valoriza o processo — não só o resultado.

Se você é profissional e discorda de alguma decisão, está convidado a me procurar com a evidência que sustenta a alternativa. Ciência é debate, não dogma. Se a evidência mudar, eu mudo.

Dr. Marcelo Borille — CRO-RS 14520 — ORCID: 0009-0000-5422-207X

Rua 24 de Outubro, 1440/404 – Porto Alegre – RS. WhatsApp: (51) 999152255.